Vozes de um Currículo Oculto: Mindfulness, Pedagogia das Cores e muito mais!

por: Rosemari Glowacki

Leitor amigo, já ouviu falar sobre “ Currículo Oculto”? Conhece o termo e já se questionou o que significa, como se apresenta ou como trabalhá-lo em sala de aula ?

 

Por currículo oculto entende-se, segundo o Dicionário inFormal : “Aquilo que não está programado, planejado para a aula e que se faz necessário trabalhar com os alunos”. Ou ainda, segundo o MEC:  “O currículo oculto representa uma dimensão implícita no processo educacional não mensurável e informal, que faz parte do cotidiano escolar transmitindo experiências que reforçam o aprendizado sociocultural, na inter-relação professor aluno e o saber”.

 

Philip Jackson foi o primeiro teórico e educador americano a utilizar esta expressão “currículo oculto”, fazendo referências às características subjetivas e estruturais do ambiente de aula que contribuem ou influenciam no processo de educação enquanto socialização tornando evidente, a coexistência de aprendizagem colateral ao currículo explícito formalmente.

 

Esse assunto está no farol de muitos educadores, seja na exigência do trabalho de assuntos como leitura e produção de textos, história, geografia, biologia, entre outros, seja no que se refere ao desenvolvimento de competências socioemocionais. Lembrando que, na área de gerenciamento de emoções o professor, tende a decidir sozinho qual construto vai trabalhar em sua sala de aula…

 

O fato é que a sociedade, a escola e os pais esperam do professor um trabalho no sentido de preparar os alunos para entender melhor suas emoções. E sublinho aqui a dificuldade destes mesmos alunos, e porque não dizer dos próprios pais, no quesito “ lidar com o não” ou qualquer outro tipo de frustração.

 

Gerenciar tais situações leva o educador a trabalhar o currículo oculto no sentido de desenvolver estratégias para a aprendizagem dos conteúdos atitudinais. Isto porque, a maior parte dos problemas tradicionalmente percebidos na sala de aula (exclusão, furto, briga, bullying, cola, atitudes de desrespeito ao professor, dentre outros ainda mais sérios como o próprio suicídio – este último que demanda o apoio de profissionais da área da saúde mental) está intrinsecamente relacionado à questão dos chamados “ conteúdos” que, se ensinados e não entendidos sem clareza, refletem nas relações interpessoais que se constroem na escola e na família. Ou seria vice-versa?

 

Não ter resistência ou estofo emocional para lidar com a frustração parece ser um dos males do século. São crianças, jovens e até adultos incapazes de aceitar o “não” e tendo atitudes de níveis altíssimos de estresse diante de negativas, algumas que até nos parecem desproporcionais. São situações das mais variadas, mas impactam negativamente em suas vidas.

 

É um equívoco pensar que o professor sozinho dará conta dessa situação. Faz-se necessário que todos os envolvidos no ato educativo repensem, junto com o mestre, seu papel nesta questão. Leia-se aqui: sociedade, escola e pais. Precisamos todos pensar em um caminho para minimizar tal problema.

 

Fala-se hoje em várias estratégias: Mindfulness, Pedagogia das Cores, Desenvolvimento da Inteligência Emocional e Setembro Amarelo.

 

“Abafar” conflitos (não os resolver), não se envolver (porque é da alçada dos pais ou da escola) ou fazer uma escuta analítica sem feedback (que nem sempre têm continuidade, pois a escola não possui um profissional especialista na área) são ações que acontecem no interior da sala de aula e da própria família. Esse modo de atuar, eticamente ineficaz, faz com que os envolvidos se sintam como um bombeiro tentando apagar um incêndio de altas proporções. Exaustos, sentem-se incompetentes! Algo precisa ser feito no sentido de trabalhar essa questão de forma mais efetiva e continuada.

 

Têm surgido muitos projetos socioemocionais nos últimos tempos. E  eles podem auxiliar nesta tarefa árdua ! Utilizá-los de forma multidisciplinar pode  minimizar os efeitos de situações oriundas desta urgência de desencadear ações que ampliem o diálogo e a compreensão dos conflitos, sem jamais negar sua natureza.

 

O exercício destas competências passa pela escolha consciência de ferramentas. O processo não pode concentrar-se apenas pelo caminho do chamado “ currículo oculto”, ou escolha isolada do professor de qual ferramenta usar (textos de autor “x” ou “y”, músicas motivadoras para discussões, filmes com temas que auxiliassem nas reflexões, ou seja, material para apoio ao desenvolvimento de competências socioemocionais) e sim um projeto com escopo e sequência. É urgente, um trabalho mais alinhado e de impacto positivo.

 

O que é/foi feito sob a forma de “currículo oculto” pelo professor, isoladamente, pode ser uma prática da escola. A expressão “a união faz a força” cabe muito bem nesse momento. Tal ação requer a interlocução escola/família/estudante e o entendimento do sujeito como um ser histórico, crítico e social.

 

Outros profissionais podem ajudar e ajudam muito o educador nesta busca de promover a própria autoconsciência e o desenvolvimento desta nos estudantes. Temos os psicólogos, os orientadores educacionais, os próprios coordenadores pedagógicos que quando bem instruídos constituem-se ponte segura entre o profissional da saúde e a comunidade escolar.

 

Embora o orientador educacional não seja um especialista nas didáticas – essa é a especialidade do coordenador pedagógico -, ele deve ser capaz de identificar se a ação docente está de acordo com os princípios que norteiam o projeto pedagógico da escola e as intenções de desenvolver competências socioemocionais, exigidas hoje pela BNCC.

É imprescindível a participação de todos ! Criar uma parceria entre o grupo docente e o pedagógico no sentido de promover um diálogo entre as ações e seus atores e, mesmo que estas sejam trabalhadas de forma individualizada pelo professor no interior da sua disciplina, o grupo de professores saberá qual a linha norteadora das intervenções.

 

Trata-se do alinhamento destas ações que se iniciam no compartilhar de observações do cotidiano escolar, no (re)conhecimento de aspectos desenvolvidos pelos pares dentro do chamado currículo oculto (dessa forma, não mais tão oculto), a problematização conjunta de temas relacionados à qualidade do convívio (violência, questões de gênero, valores, bullying, dentre outros) e socialização de ações positivas desenvolvidas.

A integração do corpo docente com o pedagógico só funciona nas escolas que acreditam e apostam na troca de experiências e saberes. (Re) conhecer o que tem sido trabalhado como currículo oculto para o desenvolvimento de competências socioemocionais é imprescindível, bem como estudar novas possibilidades.

 

Por isso mesmo, leitor… Destaquei no título deste nosso bate papo: Mindfulness, Pedagogia das Cores, desenvolvimento das Inteligências Emocional e Setembro Amarelo. Poderia acrescentar outros, mas creio que falar destes já desloca nosso eixo de atenção para um currículo oculto compartilhado que é bastante promissor no que se refere ao trabalho com as emoções e seu gerenciamento. Neste momento, o foco será o Mindfulness.

 

Mindfulness: atenção plena

 

Leitor amigo já ouviu falar sobre Mindfulness?

 

Você lembra quando foi a última vez que realizou tarefas rotineiras como escovar os dentes, preparar seu café, vestir-se, dirigir ou ler e-mails sem pensar em nada além do que estava fazendo naquele momento? Quando estava focado no “aqui e agora” e não pensando no que faria logo em seguida ou durante o dia?

 

Já vivi isso – e ainda vivo, mesmo que buscando a autoconsciência –  e sei do que que se trata:  sintomas de distração e falta de consciência do momento presente. Dizem estudiosos da mente humana que depressão é excesso de passado e ansiedade é excesso de futuro. E esses mecanismos podem nos roubar momentos importantes da vida, acumulando sentimentos tóxicos.

 

Você deve estar se questionando, como já fiz inúmeras vezes, como sair desse caleidoscópio de emoções. Pois bem, entre tantos outros programas, ferramentas, discussões filosóficas – científicas ou não –  surge o “Mindfulness”.

 

Mas em que consiste esse novo termo, ou “modismo” como diriam alguns mais céticos?  Esse conceito foi proposto no Brasil pelo prof. Dr. Tiago Tatton, Phd em Mindfulness pela UFRGS e King´s College Londres.

 

Segundo o professor, o Mindfulness traz inúmeros benefícios para o nosso seu cérebro. São práticas, intervenções, exercícios que promovem o bem estar, ou o que o próprio significado do termo em inglês: “atenção plena”.

 

Conceitualmente falando, o autor define: “Mindfulness é um estado psicológico no qual estamos atentos ao presente de forma intencional e com esforço gentil de não-julgar nossa experiência. Assim, percebemos pensamentos, sensações corporais e emoções no momento que eles ocorrem, sem reagir de maneira automática ou habitual. Com isso, mesmo em circunstâncias difíceis, abre-se espaço para que possamos fazer escolhas mais conscientes e funcionais, influenciando positivamente na maneira como lidamos com os desafios cotidianos”.

 

É também uma tradução em inglês da palavra hindu “sati”. Pode ser traduzida para “awareness” (em português: consciência). Mindfulness, portanto, é o estado mental em que o indivíduo deve autorregular sua atenção para o momento presente. É um estado que se atinge através de um esforço intencional.

 

O conceito “atenção plena surgiu no budismo, mas não se trata de um ato religioso” – afirma o Dr Tatton. Ao contrário da meditação tradicional que intenciona “esvaziar a mente”, o mindfulness propõe “focar no momento presente”.

 

Trata-se da atenção ao “aqui e agora” na intenção de compreender melhor o que vivenciamos. Qualificando ações, aceitando situações e buscando o equilíbrio necessário para passar por várias situações.

 

Sabe quando você tem alguma dificuldade com uma área específica? Exemplo: entraves no trabalho, ruídos de comunicação familiares ou mesmo problemas de saúde que o tiram do seu eixo, levando-o  a “parar” sua vida para se tratar ou buscar a cura? São esses os momentos em que dar atenção focada às questões pode ser a chave para resolvê-los com maior rapidez e equilíbrio.

 

Chegamos aqui a um princípio prático do Mindflness: exercícios de concentração e atenção. Ao estudar melhor sobre o tema, descobri que são usados em diversos programas e por diversas disciplinas terapêuticas para ajudar na redução da ansiedade e qualquer pessoa pode aprender a tirar proveito dela para melhorar sua performance.

 

Quer testar seu poder de atenção?  Vou propor um exercício e gostaria que você o fizesse para tomar consciência do seu grau de concentração.

 

Confira os exercícios no próximo post!

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