Tinha uma avaliação no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma avaliação

por: Rosemari Glowacki

Seja em uma sala de aula no coração do Brasil ou naquela que fica perto do Chuí, o fato é que se você receber uma folha branca e a solicitação “ escreva sobre o tema X”, com certeza vai sentir-se pressionad@. Ah, car@ leitor@, jogue a primeira pedra quem nunca, pelo menos uma vez, sentiu a boca seca, a mente em turbilhão, o “ vazio” ao se deparar com a fatídica hora de “redação”.

Drummond nunca pensou que no meio do caminho de todo estudante tem uma avaliação. Ele só eternizou em versos “ a pedra” que havia no meio do caminho. O fato é que não tão poética, mas tem uma pedra no meio do caminho da produção de textos.

(Re) Pensar a forma como os professores avaliam e estimulam a produção textual dos alunos parece o caminho para melhor compreender o cenário educacional atual, em específico, intervir de forma positiva a fim de melhorar a produção de textos na sala de aula, nos cursinhos, no pré-vestibular, no Enem e academia.

A qualidade do leitor e escritor que a escola pretende formar e o uso que ele faz da escrita é o que o constitui cidadão do mundo. Essa afirmação encontra apoio no PCN:

os objetivos de Língua Portuguesa salientam a necessidade de os cidadãos desenvolverem sua capacidade de compreender textos orais e escritos, de assumir a palavra e produzir textos, em situações de participação social.” E também “Se o objetivo é que o aluno aprenda a produzir e a interpretar textos, não é possível tomar como unidade básica de ensino nem a letra, nem a sílaba, nem a palavra, nem a frase as quais, descontextualizadas, pouco têm a ver com a competência discursiva”. (PCN, 1997:20).

Assim, a unidade básica de ensino da língua escrita só pode ser o texto.

O professor é um dos principais atores do contexto escolar. Cabe a ele pensar formas de ensinar que promovam e contribuam para o desenvolvimento de habilidades, como por exemplo: originalidade, criatividade e estratégias para a solução de problemas. Em síntese, cabe a ele ensinar o aluno a interpretar, analisar e produzir seu próprio conhecimento, por intermédio da construção de textos coerentes e coesos.

Neste contexto, avaliar esse texto e proporcionar um feedback ao aluno também é sua tarefa. Entretanto, a realidade de sala de aula revela ( ? ) que existem problemas no que se refere a avaliação destes textos, ou seja, o docente nem sempre está preparado para mensurar a qualidade dessa produção do estudante. Quais seriam as barreiras enfrentadas pelo docente? Gramaticais e estruturais? Semânticas? Interdisciplinares? Que práticas pedagógicas estão deficientes? Qual o elemento inibidor da produção textual? Seria uma avaliação inconsistente?

A avaliação é um processo complexo, envolvendo aspectos que vão, desde a subjetividade, até as técnicas de corrigir. Os avanços da Linguística, mais especificamente da Linguística Textual, da Análise do Discurso e da Pragmática, têm trazido contribuições outras, além daquelas somente de caráter linguístico, determinadas pela língua oficial. Tais contribuições têm se detido na textualidade, cujo enfoque é o texto como objeto inacabado e também pragmaticamente construído.

Parece que o problema maior concentra-se na diversidade de critérios adotados pelo docente durante o processo avaliativo do texto, o qual, não tendo nenhum referencial teórico, cria seus próprios modelos de correção e avaliação, tornando-a unilateral e totalmente subjetiva.

Chamo você então, car@ leitor para refletir a respeito da forma de avaliação da produção textual que acontece no interior das nossas escolas. Os resultados referendarão, ou não a hipótese de uma avaliação unilateral e subjetiva realizada por parte dos docentes.

1. O CHÃO DA SALA DE AULA

No campo do ensino fundamental, médio e mesmo no superior, muitos profissionais demonstram inquietações quando se discute o tema de produção textual e como avaliá-la. Nas falas, muitos conflitos, inquietações e consequentes reflexões em torno da formação, do papel do professor no contexto da produção textual dos discentes e avaliação desses textos.

Há que se considerar que, tanto professores quanto estudantes são muito importantes nesse contexto, já que ambos são elementos fundamentais no processo de ensino-aprendizagem. Observar e estudar a questão da produção de textos é buscar formas alternativas de torná-la mais eficiente, vislumbrando a qualidade de ensino ministrada e de conhecimentos apreendidos. Isso, com certeza, influenciará no saber e fazer, ou seja, na construção da comunicação escrita.

Nesse olhar especial  para a avaliação da produção e interpretação textuais, com enfoque na singularidade do leitor como co-produtor do texto, justifica-se explorar a diversidade de estratégias de estudo e avaliação necessárias à prática de construção/avaliação eficiente de texto.

Teorias como coerência e coesão textuais ( leia, car@ leitor@ o livro de Maria da Graça Costa Val), associadas à Estética da Recepção – um novo percurso desse caminho que deságua no leitor ( JAUSS, 2001) .

Definida por JAUSS (1986) como uma pesquisa sobre a recepção da literatura e seus efeitos no leitor, a Estética da Recepção visa ultrapassar uma teoria imanentista do texto, deslocando o eixo de análise para a sua recepção pelo leitor. Essa nova estética, que compreende a relevância da relação do autor com a obra, dentro de um dado contexto, e o papel significativo do leitor na sua recepção, servirá de alicerce às considerações críticas sobre a avaliação de textos.

Pergunto ao professor: você já sentiu necessidade de repensar a forma como avalia os textos dos seus alunos? Ao estudante: você já quis saber por que cargas d ´águas seu texto tirou conceito ruim?

Então, professor e aluno-produtor de textos, vale ainda pensar, a aprendizagem e a motivação, estratégias e metas de aprendizagem, desenvolvimento de habilidades e competências.

Sim, esses são conceitos que devem ser focos eficientes de estudo. Autores como COLL ( 1994 ), PERRENOUD ( 2003), dentre outros, também auxiliam a clarificar essa discussão. Acrescenta-se a isso a Textualização, um chamado para vislumbrar o texto ainda de uma forma mais complexa, ou seja, utilizando das teorias da textualidade, mais aspectos de coesão textual e ressignificação do texto pelo leitor.

Quando os alunos ingressam na escola, a leitura e a escrita são inicialmente as habilidades mais importantes que devem ser aprendidas por eles. A escrita é uma ferramenta usada pelos indivíduos desde os tempos mais remotos (homens das cavernas) para imprimir lembranças, transformar, organizar, transmitir conhecimentos, descobrir e compreender melhor o mundo.

O aluno escreve, o professor “ corrige”. A formação desse professor, bem como suas habilidades de correção, tem sido muito discutida entre vários pesquisadores, e, conseqüentemente, muita estudos têm sido realizados, mas alterações de fato, ainda não são notórias na estrutura curricular dos cursos de graduação.

Quais seriam as habilidades e competências necessárias ao docente para que o ato de avaliar a produção textual de acadêmicos fosse positivo? A falta de preparo dos docentes para trabalhar com o desenvolvimento de formas de pensamento crítico, autônomo, divergente e com os conteúdos de maneira questionadora tem sido o entrave?.

No aspecto produções textuais tanto discentes quanto docentes, confundem texto com redação. COSTA VAL (1991) define o texto como tecido, entrelaçamento; trabalha a noção de coerência e coesão, apresenta dados que confirmam o número reduzido de professores que compreendem a avaliação presa à textualidade.

A diversidade de critérios empregados para avaliar acusa, talvez, falta de informação por parte dos professores sobre como redigir textos e sobre o que neles considerar.

Associada a essa teoria, a estética da recepção de JAUSS pode constituir-se em outro parâmetro de avaliação, pois define que  o efeito e a recepção são momentos distintos, o primeiro trata do efeito condicionado ao texto propriamente dito; a segunda é aquele momento do leitor.

Daí que  o sentido do texto se constrói nessa inter-relação  texto/receptor, o que vai gerar uma experiência, um processo de significação ainda mais abrangente e produtivo ( o estudante produzindo o seu texto).

Ao procurar resgatar a importância da experiência estética, conforme considerações já apresentadas anteriormente, JAUSS a desdobra e afirma que ela passa por três momentos simultâneos e complementares: a poiesis, a aísthesis e a katharsis.

O autor explicita, através dessas três fases, a natureza libertadora da arte fundindo dois aspectos importantes: seu papel transgressor e seu papel comunicativo.
Diante do exposto, a prática de ensino e de avaliação da produção textual descortina-se como um campo a ser observado na intencionalidade de promover mudanças que auxiliam a todos os atores do ato educativo.

Nesse sentido, a tarefa do professor, mas que um avaliador de textos, passaria a ser estimular a criticidade dos discentes, possibilitando que se tornem protagonista da própria história, voltados para o desenvolvimento de suas próprias habilidades e competências lingüísticas.

Planejar, implementar e gerenciar situações de aprendizado contínuo é tarefa do docente. Em específico na área de produção de texto esse papel é ainda mais complexo, pois passa pelo canal do estímulo e valorização do estudante. Assim, (re)pensar sua prática pedagógica e avaliativa é o primeiro passo. Professor e estudante são co-responsáveis nesse processo.

 2. O TEXTO

 Todo texto só é verdadeiramente valorizado quando  ocorre a leitura crítica, na intenção maior de descortinar sua significação. A fruição desse objeto estético dá-se na interação e  no diálogo texto/leitor.

Para avaliar a produção textual é necessário compreender que essa produção divide-se em dois aspectos: nível semântico e estrutural. Nessa perspectiva, o docente que se propõem a avaliar o texto produzido pelo aluno precisa fazê-lo consciente dessas duas dimensões.

Numa palavra: subjetivação. Em outras: apreensão, introspecção, leituras diferenciadas.  Infelizmente, a lacuna de sua teoria ainda não foi preenchida: qual seria o leitor ideal?  Isso não importa, tendo em vista que suas idéias já despertaram para um retorno, sem mistificação, ao texto.

A recepção de um texto constitui-se num processo gerador de significado, que se inicia muito antes da leitura do texto propriamente dito, como já ressaltado anteriormente; a obra se inicia quando da sua construção pelo autor, assim,  pode e deve ser reconhecida  em inter-relação com a realidade histórico-cultural do autor e do leitor.

Enfim, da intensificação da natureza comunicativa do texto emerge a experiência estética na obra de arte, e JAUSS,  resgatando a importância dessa experiência, desdobra e afirma que ela passa por três momentos simultâneos e complementares: a poiesis, a aisthesis e a katharsis.

Poiesis é produção, fabricação. Significa uma criação que instaura uma realidade nova, criar não é fazer algo do nada, como afirma a tradição hebraica, mas, no sentido da acepção grega, significa gerar e produzir, dando forma à matéria bruta preexistente.

O prazer de se sentir co-autor da obra é a poiesis.  JAUSS afirma que, quanto mais o artista inova, mais ele torna-se interessante para o público.

Ainda poiesis pode ser compreendida, no sentido aristotélico da “faculdade poética”, como o prazer ante a obra da qual apropriou-se o receptor no ato da leitura.

A aisthesis diz respeito ao efeito provocado pela obra de arte como renovação da percepção do mundo circundante, a própria vivenciação do leitor. Sublinha JAUSS que “legitima-se, desta maneira, o conhecimento sensível, face à  primazia do conhecimento  conceitual (…) como experiência da densidade do ser”. (SARTRE in apud JAUSS, 80)

Já a katharsis corresponde à libertação do leitor através da experiência estética comunicativa fundamental da arte, permitindo-lhe enxergar mais amplamente os eventos, ressignificá-los, de forma a dar uma resposta nova.

Posteriormente à leitura compreensiva, temos a leitura retrospectiva, na qual se dá a interpretação, e que assim se chama, porque se pode, no processo, voltar do fim para o começo ou do todo ao particular.

Essa experiência catártica, inerente ao processo de identificação vivenciado pelo receptor, acentua a função comunicativa da arte verbal.
Ler é um ato que leva à produção de sentido, uma vez que permite ao leitor a seleção, organização, antecipação, retrospectiva e modificação durante o processo da leitura do texto; seriam os denominados “pontos de indeterminação” a serem “preenchidos pelo leitor”.

Segundo COSTA VAL(1996) a palavra texto, etimologicamente, deriva do termo latino textum, que significa tecido, um produto composto do entrelaçamento de uma multiplicidade de fios (…). Transpondo isso para a leitura, texto passou a indicar um conjunto de palavras aptas a produzir um sentido; um poema, um romance, uma crônica ou uma peça teatral são chamados textos.

Logo, a escrita não se acaba até que o leitor exerça a sua ação pessoal, no fazer interpretativo, donde se cria o significado, porque, ao ler, descobre-se a parte não formulada do texto, e, em seguida a própria produção textual.

Vale ressaltar, então, a relevância desse novo olhar por sobre o texto, descobrindo o leitor como seu continuador.  Nas universidades, no ensino médio e fundamental cabe ao mediador de conhecimentos, o professor, compreender que cada nova leitura realizada no espaço da sala de estar ou de aula, revitaliza o texto.

3. RECEPÇÃO E AVALIAÇÃO

A estética da recepção, teoria de JAUSS não se constutui alicerce suficientemente seguro para estudar a recepção e avaliação da produção de textos,  todos os conhecimentos já produzidos nessa área são uma base mais segura e fonte de inspiração e crítica.

Daí que cabe àqueles que trabalham com o texto, sejam eles  produtores, críticos, socializadores das produções (por exemplo, professores), visualizarem-no nas mais diferentes abordagens teóricas, uma vez que, o futuro leitor é iniciado  na sala de aula.

Ainda, aspectos pragmáticos são utilizados por COSTA VAL para julgar textos produzidos por alunos. Um critério interessante para servir de parâmetro na correção da coerência textual, para a autora, sustenta-se em cinco aspectos: intencionalidade, aceitabilidade, situacionalidade, informatividade e intertextualidade.

Para compreender melhor o texto faz – se necessário, primeiramente identificar a intenção de sua construção. Discutir a intencionalidade ( objetivo do produtor do texto, sua tese ou idéia central discutida) é situar no eixo do produtor do texto qual sua verdadeira intenção ao produzi-lo ( comentar, discutir, socializar, criticar ou comparar determinada informação, dentre outros).

Em se tratando de aceitabilidade ( perspectiva do leitor, sua aceitação ou não dos argumentos utilizados pelo autor na defesa da sua tese) é importante destacar quais argumentos foram utilizados e seu grau de convencimento. Esse item situa-se no eixo da recepção e do leitor.

O item mais complexo, é a situacionalidade ( contexto sócio-econômico-político e cultural presentes no texto, linha ideológica defendida, linguagem e leitor médio), isto porque é um olhar que se lança sobre outras informaçãos sujacentes ao texto.

A informatividade ( grau de previsibilidade e expectatividade do leitor no que se refere aos dados apresentados pelo produtor do texto) corresponde às informações conhecidas e aquelas novas informações que são incorporadas ao texto e eu surpreendem o leitor.

A intertextualidade ( citações que dão cientificidade ao texto).

 

  • AVALIANDO TEXTO

 

3.1.1   Durante uma atividade de produção textual, alunos de um de Curso de Nutrição foram incentivados a comentar a imagem abaixo ( dois bebês “ ornamentados “ ) e produzir um texto sobre a importância da comunicação no universo do profissional da nutrição. Foram destacadas as palavras-chave: cultura alimentar e mitos sobre alimentação saudável.

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A comunicação e a responsabilidade do nutricionista :mitos alimentares

“O peixe faz bem ao cérebro”; “o chocolate engorda”; “a cenoura faz bem aos olhos”; “a fruta é rica em vitaminas” (…), estas são várias expressões que ouvimos desde os tempos mais remotos.

 O Homem foi, desde sempre, transmissor e receptor de mensagens sobre a alimentação. Mas quais as razões para que tal aconteça?
“Somos o que comemos”, outra frase por muitos pronunciada, demonstrando assim a relação direta, mais que constatada, entre os alimentos que ingerimos e aspectos como, a nossa constituição física, o nosso estado de saúde e até a nossa personalidade…

 A comunicação sobre a alimentação surgiu, primeiramente, como forma de proteção e desenvolvimento da espécie humana. Hoje em dia, estes aspectos já não são tão pronunciados, destacando-se a promoção de alterações de hábitos alimentares, com o propósito de prevenir ou retardar o aparecimento de patologias degenerativas. Deste modo, verificou-se um “boom” de informação sobre os constituintes dos alimentos e das suas propriedades funcionais, muitas vezes não compreendidas pela população em geral.

 O Homem como ser curioso, sempre teve uma preferência pela descodificação do desconhecido, criando mitos como forma de resolução de situações enigmáticas. No que respeita à alimentação, esta tem sido um dos campos onde se tem evidenciado um grande número de mitos: -“Beber água emagrece”;“A fruta não engorda”; – “O azeite é saudável, logo posso utilizá-lo na quantidade que me apetecer”.

 Cabe assim ao nutricionista clarificar e corrigir estas noções do senso comum, de forma a alterar hábitos alimentares, que até serem esclarecidos podem ser nocivos. Daí a grande importância da comunicação em alimentação e do nutricionista como comunicador

( texto de um aluno )

3.1.1 Avaliando o texto

As teorias da estética da recepção defendida por JAUSS(1979) e a análise da coerência textual de COSTA VAL(1991), somadas podem servir de parâmetro avaliativo da qualidade semântica do texto produzido pelo discente do Curso de Nutrição.

 

3.1.2 Processo de Recepção

Se a recepção de um texto constitui-se num processo gerador de significado, que se inicia muito antes da leitura do texto propriamente dito, como já ressaltado anteriormente; a obra se inicia quando da sua construção pelo autor, assim, pode e deve ser reconhecida em inter-relação com a realidade histórico-cultural do autor e do leitor.  Assim, a primeira leitura se dá por meio da imagem dos bebês.

Como bem afirma Jauss é da intensificação da natureza comunicativa do texto que emerge a experiência estética na obra de arte. Resgatando a importância dessa experiência, desdobra e afirma que ela passa por três momentos simultâneos e complementares: a poiesis, a aisthesis e a katharsis:

  • Poiesis é produção, fabricação. Significa uma criação que instaura uma realidade nova, significa gerar e produzir, dando forma à matéria bruta preexistente. No caso dos bebês, a forma produzida foi uma alusão a alimentação saudável ( vegetais: repolho) em contraste com a obesidade das criança, algo no passado considerado belo ( aspecto cultural) mas que não atinge esse grau de satisfação no presente ( cuidados com o futuro da criança, em especial por estudos demonstrarem que um pequeno obeso tende a ser um adulto obeso).

 

  • Aisthesis diz respeito ao efeito provocado pela obra de arte como renovação da percepção do mundo circundante, a própria vivenciação do leitor. Sublinha JAUSS que “legitima-se, desta maneira, o conhecimento sensível, face à primazia do conhecimento conceitual (…) como experiência da densidade do ser”. (SARTRE in apud JAUSS, 80). Ou seja, quando nos apropriamos dessa informação dos novos estudos e o aumento da população obesa nos últimos anos é natural que se inicie um questionamento sobre o fato. Ao questioná-lo, apreendemos seu significado e o assunto torna-se relevante para o leitor e ele dele se apropria.

 

 

  • Já a katharsis corresponde à libertação do leitor através da experiência estética comunicativa fundamental da arte, permitindo-lhe enxergar mais amplamente os eventos, ressignificá-los, de forma a dar uma resposta nova. Em se tratando da imagem, esse momento corresponde a dar um sentido próprio à ela. O leitor nesse momento, recepciona a significação adequando-a ou relacionando-a sua experiência estética : algum conhecido obeso, uma criança obesa, problemas com sobrepeso. É o efeito catártico que o mobilizará para escrever o seu texto sobre o assunto analisado por meio da imagem.

 

3.1.3 Avaliando a coerência textual

COSTA VAL(1991) destaca cinco critérios para avaliar a coerência de um texto

  • Intenção – Comentar, afirmar, dar opinião. No caso do texto do aluno, sua intenção foi estabelecer uma relação entre comunicação e mitos sobre alimentação saudável. A tese apresentada foi retomada no parágrafo final o que mantem o critério da continuidade no texto (“expressões que ouvimos desde os tempos mais remotos” é um fragmento retomado no final por “e corrigir estas noções do senso comum, de forma a alterar hábitos alimentares”.
  • Aceitação – os argumentos utilizados foram bem empregados ( citação de frases que são “ mitos”, comentário sobre os aspectos comunicativos entre as sociedades em relação à chamada alimentação saudável, necessidade de prevenção de doenças por intermédio de hábitos alimentares saudável, dentre outros).
  • Situacão– Contexto( sócio-economico, político e cultural). Foram abordados os contextos sócio-cultural : a forma como as pessoas entendem a alimentação saudável e os mitos que são constituídos por meio dessa visão de ,mundo e a necessidade de mudança de hábitos e conscientização da população.
  • Informação – Informações (Dados Novos, Conteúdos). Não foram apresentados dados novos que surpreendessem o leitor.
  • Intertexto – Citações (Comentários sobre a Linha Epistemologia) não foram destacadas o que empobreceu o texto. Em se tratando de um acadêmico de Nutrição, a citação de teóricos teriam dado mais respaldo ao texto, sem falar do teor científico.

Após a análise ( avaliação ) da produção textual do acadêmico, pontua-se que trata-se de um bom texto, porém tem fragilidades nos aspectos de informatividade e intertextualidade. Neste exemplo de avaliação de um texto foram apresentados, de forma sucinta, critérios para verificar a coerência. Ou seja, essa avaliação é apenas no eixo do sentido.

Porém, sabemos que esse é um dos focos da avaliação. Em relação à coesão, COSTA VAL(1991) define a questão gramatical com a observação da estrutura do texto: colocação pronominal, regência verbo-nominal, pontuação, acentuação, dentre outros. Como se pode notar, a coerência situa-se no eixo do sentido e a coesão no estrutural. Tal delimitação e estudo é uma forma de avaliar a qualidade da estrutura de um texto.

Para tornar a avaliação um processo ainda mais eficiente é imprescindível que seja discutida as questões da ordem da coerência e da coesão textual. Lembrando que a coerência é o que dá a sustentabilidade do texto.

No caso de ocorrer a avaliação da coesão, chegaríamos à proposta completa da teoria da Textualização, a qual defende esse olhar tríplice para o texto: coerência, coesão, ressignificação do texto.

No caso do texto aqui desenvolvido faltou apenas uma discussão de coesão. Porém, é preciso destacar que todas as teorias de análise de texto consideram os critérios de coerência – sentido – os mais importantes dentro de qualquer tipo de avaliação textual.

CONHECENDO A PEDRA DO CAMINHO

A produção de textos de qualidade passa pelo cenário da recepção de informação. Quanto melhor a recepção, melhor a escrita e a compreensão textual. O leitor é um co-responsável pela produção de novos significados.

A abertura de uma obra ( leitura e releitura de um dado txto ou informação) permite que ela continue viva, e quem lhe dá essa chama eterna é o leitor. O leitor “salva” o texto sempre que ressignificá-lo mediante uma interpretação única e singular. Nesse instante, o leitor será co-produtor de seu significado.

Incentivar o aluno a escrever e reescrever, bem como a ele próprio analisar seus textos é de suma importância.A motivação contínua do estudante é influenciada pelo ambiente social de sala de aula e pela eficácia do professor estimulado.

Pesquisas recentes acerca da habilidade do educador em manter os alunos motivados constantemente, demonstram que a auto-eficácia do estudante pode ser afetada em sua motivação ao iniciar e persistir em tarefas de aprendizagens.

Trata-se da capacidade do professor de aplicar procedimentos eficazes para motivar seus alunos. A eficácia do ensino como o julgamento do professor sobre a influência potencial e a aprendizagem do aprendiz, isto é, a habilidade docente em motivar a aprendizagem dos discentes. Em especial a produção de textos passa por essa etapa.

Produzir bons textos é possível, cabe ao professor apresentar ao estudando teorias como a estética da recepção e da coerência e coesão textuais. Ao compreender como será avaliado o seu texto, ele o estruturará de forma mais adequada.

MASLOW declara: “O homem tem o seu futuro dentre dele próprio, dinamicamente ativo neste momento presente” (1986:42), o que comprova o fato dos alunos-leitores e produtores de texto serem a pedra angular de todas as  discussões e conjecturas  no campo da Educação.

As ações docentes devem promover nos alunos a motivação. A motivação é relevante quando as expectativas dos estudantes são satisfeitas e atribuem seus sucessos ao seu próprio esforço, a utilização de estratégias efetivas de aprendizagem, e principalmente se o clima social permitir a interação e a cooperação entre eles.

Produzir textos deve ser uma atividade prazerosa e reescrevê-lo uma possibilidade de aprender a aprender. Assim, docente e discente. atores principais do ato educativo, protagonistas da própria história sentir-se-ão motivados. O primeiro cumprirá seu papel de mediador do conhecimento, e, o segundo aprenderá num ambiente que respeita e estimula o desenvolvimento de suas habilidades linguísticas. Ambos, mais conscientes e éticos nas suas relações profissionais e pessoais.

Um novo olhar que vai para além dos muros da escola, da faculdade.

 

BIBLIOGRAFIA

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2009.

COSTA VAL, Maria da Graça. Redação e textualidade. São Paulo: Martins Fontes, 1999..
DELEUZE, G. & GUATTARI, Félix. O que é a Filosofia? Tradução de Bento Prado Jr. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.

ECO, Umberto. Estética-As formas do Conteúdo. São Paulo: Perspectiva, 1964.

JAUSS, Hans Robert. A estética da recepção: colocações gerais IN- A leitura e o leitor. Seleção, tradução e introdução por Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

MASLOW, Abraham H. Introdução à Psicologia do Ser. Rio de Janeiro: Eldorado,1968.

MORIN E. Os sete saberes necessários à Educação do futuro. SP: Cortez; Brasília: UNESCO;2000.

PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS: introdução aos parâmetros curriculares nacionais / Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1997.

ZILBERMAN, Regina. Estética da recepção e história da literatura. São Paulo: Ática, 2013.

 

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