A tecnologia educacional está funcionando?

por: Entretanto

Atualmente, a tecnologia educacional desempenha um papel essencial nas escolas. Ela sustenta uma nova forma de intervenção instrucional, oferecendo aprendizagem personalizada, administração escolar e muito mais. A aplicação bem-sucedida dessa tecnologia pode melhorar a produtividade e a aprendizagem do aluno drasticamente.

 

Dito isto, sabemos que muitos dirigentes escolares não têm o apoio que precisam para garantirem que o investimento em tecnologia educacional em atividades relacionadas, estratégias ou intervenções, seja baseado em evidências e eficácia.

 

Esta lacuna entre a oportunidade e a capacidade está enfraquecendo a capacidade dos dirigentes escolares de realizarem melhorias no sentido de alcançarem uma igualdade educacional, executando as metas das políticas educacionais atuais do ensino fundamental ao ensino médio. A comunidade acadêmica precisa compreender esta lacuna claramente e tomar medidas imediatas para preenchê-la.

 

Chegou o momento

 

Uma nova lei federal norte-americana, intitulada “Todo Aluno Tem Sucesso”(Every Student Succeeds Act) e voltada à educação primária e secundária promove a importância de práticas com base em evidências na compra da escola e na implementação. O uso da alocação do Estado para o apoio escolar ilustra essa questão. As escolas que recebem esses fundos devem investir apenas em atividades, estratégias ou em intervenções que demonstrem uma melhoria estatisticamente significativa nos resultados do aluno ou na programação pedagógica.

 

Esta determinação deve ser baseada em uma pesquisa bem projetada e bem implementada. À medida que a implementação começa, os órgãos públicos de educação dos Estados Unidos orientam as escolas a focarem na melhoria contínua, coletando informações sobre a utilização das ferramentas e fazendo as mudanças necessárias para alcançar os objetivos de igualdade e oportunidade educacional para todos os alunos. A lei, em suma, vincula o cumprimento de contratos com base em evidências e na implementação, que é guiada por uma melhoria constante.

 

Com isso, os administradores de escolas estão sob intensa pressão intensa para que encontrem maneiras de criar programas mais acessíveis, centrados no aluno e valiosos para um mercado de trabalho que possui rápida mutação. A educação baseada em competências (que aos poucos vem se dissociando de certificados) é uma das respostas mais conhecidas para o desafio, mas o modelo provavelmente permanecerá experimental até que mais estudos comprovem sua proficiência.

 

“Estamos apenas começamos a entender a Educação Baseada em Competências. A aprendizagem baseada em projetos, aprendizagem autêntica, avaliações de escalas descritivas bem-feitas —  estes são todos esforços positivos, mas temos a evidência para que sejamos aprovados na inspeção de um especialista em avaliação, por exemplo? Quase ninguém da educação superior tem essa especialização. É fácil esquecer que a abundância de tecnologia educacional é uma coisa relativamente nova para as escolas e para as instituições de ensino” diz o Presidente da Universidade de Southern New Hampshire, Paul LeBlanc.

 

Ainda segundo LeBlanc, no início do ano 2000, a questão tecnológica ainda era pensada em formatos para as novas tecnologias educacionais se tornarem ferramentas viáveis de gestão e instrução. Os dados sobre educação foram, em grande parte, apenas uma medida defasada, utilizada para prestação de contas e emissão de relatórios escolares. Atualmente, os dados podem fornecer fortes sinais, em tempo real, que alcançam produtividade através de, por exemplo: análise preditiva, aprendizagem personalizada, entrega e curadoria de currículo, permitindo a investigação direta dentro das práticas educativas que trabalham nos contextos específicos. O desafio atual é: como controlar e canalizar a torrente de gigabytes e transmissão de informações a partir de uma indústria de tecnologia educacional, de ensino fundamental ao sistema médio, estimada em US$ 25,4 bilhões?

 

“É muito fácil (atualmente) ir a uma conferência e se deliciar com o verdadeiro “buffet” de inovações que encontramos. Isso é algo que tentamos muito não fazer,” disse Chad Ratliff, diretor de programas educativos das escolas do Condado de Albemarle, no estado de Virgínia (EUA). Afinal, as novas informações têm que ser filtradas e controladas, o que leva tempo e experiência.

 

“Melhorar a igualdade educacional é o principal motivo principal pelo qual muitos dirigentes escolares escolheram trabalhar na área da educação. Progredir depende de práticas baseadas em evidências. É assim que o Instituto Aspen e o Conselho dos Diretores executivos das escolas do estado de Virgína apontam, em um recente relatório, que equidade significa — no mínimo— que “todo aluno deve ter acesso aos recursos e ao rigor de educação que ele necessita, no momento certo de sua educação; independente da raça, do gênero, da etnia, do idioma, da deficiência, do histórico ou da renda familiar.”

 

Isto é, partindo de um pressuposto em que as atividades, as estratégias ou as intervenções realmente funcionam para as populações que pretendem se beneficiar.

 

 

Os educadores não podem investir em atividades ineficazes. Atualmente, o presidente norte-americano Donald Trump propõe que, em 2018, o Congresso corte gastos no departamento de educação e elimine muitos programas, incluindo US$ 2,3 bilhões em programas de desenvolvimento profissional e US$ 1,2 bilhões para fundos da educação de ensino superior.

 

Com isso, o ensino superior também se encontra em uma situação difícil. O presidente pretende cortar ao meio os gastos com programas federais de trabalho e estudo, eliminar subsídios de oportunidade educacional suplementar e tirar quase US$4 milhões excedentes dos Subsídios das Bolsas de Estudo (Federal Pell Grants) para outros gastos do governo. Ao mesmo tempo, a secretária de educação, Betsy DeVos, está revisando todos os programas para explorar o que pode ser eliminado, reduzido, consolidado ou privatizado.

 

Porém, estes cortes e reduções propostos aumentam a urgência das instituições de ensino embasarem melhor suas utilizações de fundos públicos, melhorando também as oportunidades educacionais e os resultados de aprendizagem. E estes embasamentos são mais atraentes e seguros quando são construídos em cima de evidências.

 

Poucos recursos

 

Enquanto este é um momento crítico para o programa de práticas eficazes com base em evidências, eis aqui a seguinte questão: o setor educacional está apenas começando a construir este corpo de conhecimento, portanto, tudo está sem as ideais orientações e pesquisas necessárias para o sucesso.

 

Os desafios são significativos e evidentes, em todo o ciclo de vida da tecnologia educacional. Por exemplo, é evidente que determinado programa bem-sucedido influenciará padrões de aquisição, mas raramente este é o caso. O problema das implementações está ligado ao limite de custo, além de, no caso de instituições públicas, relacionado às exigências de licitações competitivas e transparentes. Ele raramente está relacionado às medidas de sucesso anteriores e relacionado à eficácia e à implementação do programa. São questões externas, em boa parte dos casos. Assim que os ensaios de implementação começam, os dirigentes escolares e seus fornecedores agem, geralmente, sem modelos claros de experiências bem-sucedidas. Simplesmente não há dados eficazes bons o bastante, para a maioria dos produtos e práticas de utilização de ferramentas tecnológica.

 

Algumas escolas e instituições com recursos financeiros, como as escolas públicas do Condado de Fairfax e de Albemarle no estaado de Virginia criaram o seu próprio processo de pesquisa para produzirem suas próprias evidências. Em Albemarle, por exemplo, a equipe de tecnologia de aprendizagem analisa soluções para a educação e necessidades da empresa. A equipe passa um tempo observando os alunos e os funcionários que estão utilizando novos dispositivos e serviços baseados em nuvem.

 

No geral, o que todos os usuários destas ferramentas buscam são dados de feedback e de desempenho dos professores e dos alunos. Eles começarão com perguntas como “se um serviço é designado para dar suporte ao desenvolvimento da alfabetização, que variável estamos tentando afetar? Quais informações precisamos para validar o impacto significativo?” No entanto, à medida que as escolas avançam e mergulham em serviços e novas tecnologias, os bytes de dados e de informações úteis se multiplicam, mas o tempo e a capacidade necessária para torná-los úteis continuam escassos. A maioria das escolas não são como as do Condado de Fairfax e Albemarle. Elas não têm os funcionários e os especialistas necessários para analisar os dados e descobrir abordagens significativas sobre o que funciona e o que não funciona. Esse tipo de trabalho e experiência não é algo que pode ser simplesmente mergulhado no modelo atual de responsabilidades e conhecimento, sem sobrecarregar e possivelmente esgotar a equipe.

 

“Muitas escolas terão metas claras, um plano de ação bem definido, que inclui oportunidades de aprendizagem profissional, orientação e um cronograma de acompanhamento. Mas muito poucas escolas sabem como exercer uma mentalidade de melhoria contínua, como perguntar continuamente: “Estamos fazendo o que dissemos que faríamos — e como corrigimos o curso se não estivermos?””, diz Chrisandra Richardson, ex-superintendente associada às escolas públicas do Condado de Montgomery em Maryland.

 

Próximas medidas imediatas

 

Então o que precisa ser feito? Aqui temos cinco questões específicas que a comunidade educativa (entidades filantrópicas, universidades, fornecedores e agências) deve reunir.

 

  • Definir normas comuns para aquisição. Se cada dirigente tiver que reinventar a roda, quando se trata de identificar os elementos-chave da avaliação de escalas descritivas de tecnologia, garantiremos que fazemos pouco progresso — e o fazemos lentamente. O setor deverá obter consenso coletivamente sobre os padrões da linha de base para as práticas de pesquisa e de base em evidências e fornecê-las aos dirigentes, através de avaliações de escalas descritivas de código aberto ou “buscas” que possam facilmente acessar e empregar.
  • Tornar a prática com base em evidência uma habilidade essencial para a liderança escolar. Periodicamente, os dirigentes da área tentam definir exatamente quais são as competências essenciais que cada dirigente escolar deve possuir (ou fazer um esforço para desenvolvê-las). Se quisermos alcançar uma patamar no qual os dirigentes sabem como a tomada de decisão com base em evidências se parece, precisamos incorporá-la em padrões profissionais e incluí-la nos nossos critérios avaliativos.
  • Encontrar e promover exemplares. Como Charles Duhigg salienta em seu best-seller, “Mais esperto, mais veloz e melhor” (Smarter, Faster, Better) pessoas eficazes e produtivas fazem seu trabalho com modelos mentais frequentemente ensaiados e claros de como algo deve funcionar. Sem esses modelos, a tomada de decisões pode se tornar desamparada, ineficaz e às vezes, até mesmo perigosa. Nossos dirigentes escolares precisam saber como que as práticas baseadas em evidências se parecem. Não podemos prever que treinamentos para os educadores ou dirigentes incorporarão boas estratégias de tomada de decisão em torno das tecnologias educacionais no futuro imediato, portanto, devemos encontrar maneiras alternativas para apresentar estes modelos.
  • Definir “melhores práticas” na avaliação da tecnologia e da adoção. Ao invés de forçar cada dirigente escolar a desenvolver e a lutar para encontrar fundos que sustentam seus próprios processos, podemos desenvolver modelos que possam aliviar a necessidade das escolas de desenvolverem e de investirem em seus próprios departamentos de pesquisa e evidências. Nem todas instituições escolares aproveitam os recursos para investigar suas próprias ferramentas, mas contextos diferentes demandam considerações divergentes. As melhores práticas ajudam os dirigentes a navegarem de maneira diferente, dentro das restrições de seus recursos. O Ed Tech RCE Coach é um exemplo de um conjunto de ferramentas livres, de código aberto, disponível para ajudar as escolas a incorporarem as melhores práticas em suas tomadas de decisão.
  • Promover a avaliação contínua e a melhoria. Decisões, até mesmo as melhores, têm uma vida útil. Elas podem parecer apropriadas até que as evidências provem o contrário. Mas sem um processo para reunir informações e avaliar a eficácia da tomada de decisão, é difícil de aprender com as decisões (sejam elas, boas ou ruins). Juntos, devemos promover práticas escolares que abraçam as práticas de pesquisa e de melhoria, a nível financeiro e de divisões de programa que aumentam as probabilidades de encontrar e manter as melhores tecnologias.

 

A urgência de conhecer e aplicar evidências para comprar, utilizar e medir o sucesso da tecnologia educacional é uma realidade, mas os recursos e os protocolos necessários para que elas sejam aplicadas são escassos. Estas são as condições que colocam nossos dirigentes escolares em uma posição de fracasso – a menos que a comunidade acadêmica e seus acionistas se reúnam para tomar algumas ações imediatas.

 

Texto originalmente publicado em The 74 Million.

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