Sobre a alfabetização em inglês

por: Rodolfo Matiello

Com o boom de escolas que se autoproclamam bilíngues, também aumentou a oferta de alfabetização em língua inglesa. Porém, esse trabalho precisa ser muito bem detalhado e planejado, afinal, as diferenças entre os dois idiomas – português e inglês – são bem significativas e básicas, como o fato da língua estrangeira ter viés fonético enquanto nossa língua materna é mais ortográfica.

 

Pensando nisso, como preencher esse gap que a alfabetização em língua inglesa anda apresentando em muitas escolas que embarcam na empreitada de alfabetizarem nossas crianças em inglês, juntamente com o português? Primeiro, a gente precisa entender que estamos transferindo para a língua estrangeira – no caso, o inglês – características do nosso bom e velho idioma materno. Os alfabetizadores costumam trabalhar com as crianças o alfabeto, iniciando pelas vogais e depois partindo para as consoantes, e, aí sim, combinando-as em sílabas. Claro que isso é uma esquematização pedagógica, mas a gente sabe que, dependendo do desempenho dos alunos, os professores têm autonomia para praticar com os pequeninos a parte alfabética que mais conveniente, no momento.

 

Professores preferem iniciar por vogais por estar não serem oclusivas e exigirem o mínimo de esforço para produção de som. De maneira bem simplista, basta abrir a boca para produzir o som de uma vogal em nosso idioma, e grafia está diretamente ligada ao “nome” que cada vogal carrega. “A” como em árvore, menina, bola, isto é, escrever a letra A está conectado com o entendimento de como se produz a vogal porque não há diferenças sonoras e ortográficas. Vamos considerar a palavra cat, muito utilizada com os aluninhos durante o processo de alfabetização.

 

(1) I loved your c/æ/t.

(2) He’s such a beautiful c/ɑ/t, isn’t he?

 

O que se nota em (1) e (2) são sons diferentes para a mesma grafia da vogal A com possíveis variações fonológicas provenientes de regionalidade. Aí eu pergunto: o professor alfabetizador em língua inglesa mostra pros alunos que aquela letra é A (com o som de “ei”) e exemplifica com a palavra madeace ou face, como ele explicará o som da vogal ao se deparar com palavras como appleswan ou chocolate? Detalhe que, na última, há uma tendência entre pequeninos e adultos a produzirem chocol/eɪ/te justamente porque foi feita a associação entre a vogal e a grafia como é feita com a língua portuguesa. O raciocínio é “porque essa letra se fala ‘ei’, e na palavra chocolate vai essa letra, eu devo pronunciá-la conforme a vogal”. Pronto. Aí é o início de um problemão.

 

Logo após as vogais, temos a tendência de passar para as consoantes que, geralmente, tem parte motora mais complexa por envolver outras partes da cabeça como dentes, lábios, ponta da língua, etc. Vamos pensar nos exemplos abaixo:

 

(3) Kick

(4) Know

(5) Observation

 

Se a gente pensar na letra K, muito comum em palavras do inglês, geralmente educadores fazem sua associação com /k/ como podemos ver em (3), mas em diversas outras situações, essa letra não é pronunciada – (4). Até aí, é só adotar a mesma estratégia quando mostramos ao pequeninos que a letra C está associada tanto com /k/ (caminho, caminhão) quanto com /s/ (anúncio, centro), só que por vezes a gente vai se deparar com dessert. Todo o trabalho de assimilação e associação, feito em língua inglesa para C e S com /s/, vai por água abaixo. O problema é quando a ortografia não faz sentido com a pronúncia da palavra, geralmente o recurso utilizado para acesso à informação das palavras aprendidas. Afinal, como que (5) pode ser escrito com S, uma vez que o que foi ensinado é que S se refere a /s/?

 

No caso de alfabetização em língua inglesa o trabalho é maior, pois é necessário mostrar pras crianças todas as variações fonéticas que uma letra pode apresentar. Enquanto a língua portuguesa nos facilita com praticamente sons correlacionados às letras e algumas variações, o inglês dificulta por nos forçar a apresentar muito mais alternativas para, por exemplo, a vogal I.

 

De acordo com o programa de ensino de língua inglesa da Inglaterra, publicado em 2013, os professores responsáveis pela alfabetização das crianças precisam cobrir a correlação entre sons e letras oferecidas pelo idioma, que são mais de 40! Dá trabalho? Com certeza, mas somente assim podemos de fato alfabetizar os aluninhos de maneira eficaz. Portanto, quando for o momento de se trabalhar a bilabial /b/ com os alunos, lembre-se da variável que ela carrega em final de palavra, tornando-se volátil como em bombtomb. Por isso, é importante ter dentro do planejamento as atividades relacionadas às correlações letra-fonema, e não somente as diretamente ligadas à pronúncia daquela letra.

 

Infelizmente, ainda temos que trocar muitas informações com países cuja língua materna é o inglês, se quisermos ter excelência na alfabetização desse idioma. O que não podemos mais fazer é tratar essa nova língua da mesma maneira que tratamos a alfabetização em português. Elas têm similaridades mas, no que tange à correlação letra-fonema, a língua estrangeira tem muito mais peculiaridades a serem trabalhadas.

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