Quando o conteúdo da sala de aula sobre territorialidade invade as ruas, vielas e o largo do Paissandu, no centro da capital

por: Paulo Roberto Magalhães

Durante nossa atividade, envolvemos aproximadamente 500 alunos, e 60 deles em duas visitas programadas que durante o trajeto a pé aproveitaram para conhecer um pouco da cidade. Apropriando-se da Aula Pública, ocupando o espaço e respeitando-o, também discutimos as questões relativa aos problemas das moradias insalubres, durante a caminhada até o Largo Paissandu onde estava localizado o prédio Wilton Paes de Almeida.

A construção do prédio, se deu em 1961 e foi concluída em 1968, fomos contando um pouco da trajetória, até chegar a triste situação: ser ocupado pelos movimentos de moradia. Ocupação essa ocorrida por moradores estrangeiros e alguns de nossos alunos.

Após, toda a síntese teórica em sala de aula com mapas, fotos, desenhos e cartazes feito pelos alunos, foi necessário levá-los até o Largo Paissandu, onde demos uma “Aula Pública” para estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental.

O tema da aula foi sobre as moradias no centro da cidade a Imigração no Glicério, além do problema da vulnerabilidade sobre as moradias no centro de São Paulo e o triste fato ocorrido no Largo do Paissandu com a queda do prédio ocupado por moradores sem teto. Após as aulas teóricas e relatos, fomos conhecer de perto a situação relatada.

Fica aqui registrado a importância de se levar os alunos ao local para que os mesmos tenham contato com o problema enfrentado por eles: a questão da falta de moradia de qualidade.
Na madrugada do dia 1º de maio deste ano, o Edifício Wilton Paes de Almeida, no Largo do Paissandu, centro de São Paulo, entrou em colapso após um dramático incêndio, deixando um saldo de sete mortes e ao menos 140 famílias desabrigadas, escancarando o problema da falta de moradia na maior cidade da América do Sul. Inaugurado em 1961, o edifício era um marco da arquitetura modernista na cidade, mas estava abandonado há anos e era ocupado por integrantes do Movimento Social de Luta por Moradia (MSLM).

Na manhã seguinte à tragédia, a menos de 2 quilômetros do local do desabamento, retomei as aulas de Geografia na turma de 4º ao 9º ano da EMEF Duque de Caxias, no bairro do Glicério.
Atuando em uma escola tão próxima do local, sabia que seria muito difícil ignorar o assunto. O que não sabia era que o acontecimento estampado nas manchetes estava presente, literalmente, dentro da sala de aula. As crianças tinham conhecidos que viviam na ocupação. Por isso, elas sentiram mais necessidade de tocar nesse assunto do que eu imaginava.

Resolvi mudar o curso do planejamento e abordar de maneira mais aprofundada o ocorrido nas aulas de Geografia. O centro da capital paulista vive há anos um drama habitacional permanente: o descompasso entre a alta dos aluguéis e os baixos salários da população, a falta de políticas de moradia e a especulação imobiliária desenfreada empurram milhares de famílias brasileiras e estrangeiras para ocupações em edifícios em péssimas condições de moradia.

Com a tragédia ocorrida no Edifício Wilton Paes de Almeida, e sabendo que vários alunos conheciam moradores do prédio, inseri como uma das etapas do trabalho uma atividade de história oral, em que as turmas puderam compartilhar e registrar relatos da tragédia. Uma das alunas da Educação de Jovens e Adultos (EJA), para a qual dei aula, tem uma das moradoras desabrigadas e compartilhou sua história.

O desabamento do prédio sensibilizou os alunos porque muitos vivem em situação semelhante. Surgiu, então, a ideia de alertar outras famílias da comunidade escolar sobre as consequências do descarte irregular de lixo e as más condições das instalações elétricas das ocupações, fatores que contribuíram para o incêndio e posterior desabamento.

Essa mobilização resultou também em uma aula pública que passou pelo Largo do Paissandu, realizada para as turmas do 8º e 9º anos. O desabamento deu ao professor a chance de aprofundar a conversa sobre outros temas que integravam o projeto. A discussão encaixou perfeitamente, pois o fenômeno das ocupações irregulares é consequência da dificuldade de acesso à moradia. O debate se mostrou tão relevante para a realidade dos alunos que decidi incluí-lo em meu planejamento regular e aprofundar as discussões nos grupos.

A disciplina de Geografia costuma ser definida – em tom pejorativo – como um mero ensino de atualidades. Mas seu papel não é só o de relatar fatos recentes. “A atualidade geográfica propõe ao aluno uma análise do acontecimento que o relacione com processos desenvolvidos em outros tempos ou espaços”, explica Sueli Furlan, doutora em Geografia Física pela USP e especialista no ensino da disciplina.

A abordagem não é nova: desde a década de 1980, a Geografia passou a incorporar uma visão mais crítica da realidade. “A BNCC recupera o trabalho com procedimentos geográficos, como a análise de mapas que desenvolvem o pensamento espacial dos estudantes”, lembra Sueli. O documento prevê, ainda, elementos já presentes na prática docente. No caso do professor Paulo, isso aparece na análise crítica da ocupação dos espaços urbanos, como o fenômeno da gentrificação, proposta aos estudantes.

As metas de aprendizagem ocorreram, a partir do currículo da cidade de São Paulo, na área de Geografia, que vem ocorrendo com o nosso projeto a partir do Ciclo Autoral (7º ao 9º ano), que destina-se aos adolescentes e tem como objetivo ampliar os seus saberes e permitir que compreendam, a realidade na qual estão inseridos, explicitem as suas contradições e indiquem possibilidades de superação, é o que venho fazendo com minhas aulas públicas no território educativo da cidade de São Paulo.

Estamos também embasados em teorias e conceitos estruturantes como os de território, paisagem, natureza, lugar e região tão bem representados nos estudos de Milton Santos, Thiago Macedo Alves, Edgar Morin, Manuel Correia de Andrade, Ana Fani Carlos, Lana S. de Cavalcante, Roberto Lobato Corrêa, Ronaldo Duarte, Otavio Ianni e Ruy Moreira, entre outros autores de referência e que são utilizados em minhas aulas de Geografia.

No Ciclo Autoral, a compreensão da construção e reconstrução do espaço geográfico como resultado das relações entre o homem e o meio a partir dos fatores políticos, sociais, culturais, ecológicos, ambientais e técnico-científicos que permeiam a sociedade humana em todo o processo histórico. Tal compreensão está inserida em nosso projeto, que objetiva conscientizar os estudantes sobre sua posição como agente das transformações que se refletem no tempo, nas redes e recortes regionais, políticos, territoriais e locais do espaço geográfico. Criei sete passos para ocupar as ruas e aprender em suas ruas, que foi amplamente divulgado.
O Mapa Mental confeccionado em sala de aula e no bairro por nossos alunos fazem-os mais criativos e atuantes na busca de um mundo melhor.

Obrigado querida prof°Joyce Santos, Fabiana Castro, Reginaldo Viana,Viviane, Fernanda Hengler, Claudia Rge Franchini, Moura Carvalho, Alessandra Zacharias, Rita De Cássia Silva Costa, Cristiane Baldini Luiz, Regina Couto, Dóris Rodríguez, Camila De Oliveira Mori. Débora Brigo, Janete Moura, Moema Arruda Dos Santos por apoiar e orientar seus alunos do Fund 1 no projeto.

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