Projeto inclusivo: mini-atletismo escolar

por: Itair Pedro Santos de Medeiros

Sou professor de Educação Física e apresento, aqui, uma proposta de Educação Física Inclusiva, realizada na Escola Municipal de Educação Infantil Profª. Terezinha Souza, em Belém – Pará. O foco do trabalho é em alunos com algum tipo de deficiência intelectual, síndrome de turner, síndrome de down, deficiências múltiplas, sequela de paralisia cerebral, distúrbio do comportamento, hiperatividade, transtorno global do desenvolvimento (TGD), autismo e surdez. Estágio de ensino: alunos dos ciclos básicos I e II.

 

O circuito de mini-atletismo surgiu em 2012, durante os jogos internos da escola. Ele foi apresentado pela primeira vez em 2011, durante a formação continuada dos professores de Educação Física, e é constituído por nove estações de exercícios que, para os alunos, damos o nome de desafios. Todas elas são são baseadas no atletismo, especialmente nas modalidades de correr, saltar e arremessar.

 

Na ocasião da formação, foi desenvolvida toda a eficácia e a eficiência dos métodos aplicados para os esportes institucionalizados, ou seja, as técnicas, os cronômetros, as distâncias horizontais e verticais mínimas preestabelecidas, os olhares rigorosos dos árbitros, além do sistema de pontuação que, como resultado final, premia e distingue os mais aptos daqueles que ainda não estão tão bem preparados.

 

Contudo, a riqueza de detalhes na aferição dos resultados, o número de pessoas envolvidas e os materiais alternativos utilizados são de impressionar pelo colorido, diversidade e criatividade. Trazê-los para a escola significava ampliar, diversificando as vivências dos alunos. De modo geral, sempre consideramos as especificidades de turmas heterogêneas e os desafios de uma Educação Física escolar que não foque exageradamente no valor competição mas, sim, na participação e cooperação, sendo tal conteúdo aplicado para os ciclos I e II. Portanto, este era o nosso desafio: propor um mini atletismo que pudesse ser feito com todos e para todos.

 

Objetivos

 

O circuito tem por finalidade propor ações que possam ser feitas coletivamente, assumindo-se, assim, as diferenças individuais como potencial favorável ao aprendizado, além de possibilitar a plena participação do discente, considerando suas condições físicas, sensoriais, comportamentais e comunicacionais individualmente. Para isso, neste ambiente, optou-se por ser cada estação executada sem conter caráter competitivo ou de aprimoramento físico-funcional, almejando-se, sim, a busca da superação dos desafios individuais tendo sempre como referência o próprio aluno, flexibilizando sempre que necessário as ações pedagógicas em seus materiais e procedimentos, e favorecendo a participação e inclusão de todos, valendo-nos do protagonismo juvenil e do trabalho colaborativo entre os profissionais e famílias.

 

Era importante atender alunos dos ciclos de formação básica I e II. Desta forma, os meios pedagógicos foram sendo flexibilizados conforme as necessidades fossem surgindo, para que pudéssemos viabilizar a participação de todos. A primeira estratégia de flexibilização das ações pedagógicas (para que outros setores do ambiente escolar fossem envolvidos no projeto) foi realizar dois encontros com toda a comunidade escolar, para discutir as questões sobre inclusão não apenas dos alunos com deficiência, mas também como forma de promover um envolvimento das famílias, professores e demais funcionários no entendimento do processo de inclusão, o que favoreceria na dinâmica de realização do circuito mini-atletismo escolar inclusivo.

 

A segunda estratégia utilizada foi a confecção dos materiais, os quais foram feitos em conjunto com alunos e professores: pintura, secagem, recorte, fixação, colagem dos materiais e a identificação de cada estação sendo feita através de placas com a linguagem brasileira de libras. As estações foram construídas com materiais de baixo custo e reutilizáveis, tais como: pneus, garrafas pet,; jornais, papelão, TNT, fita gomada, saco plástico, barbante, cabos de vassoura, corda, vara de bambu, areia, tinta de várias cores. A terceira estratégia foi a realização do circuito, envolvendo todos os alunos dos turnos da manhã e da tarde, totalizando a participação de 190 crianças.

 

Nas aulas de Educação Física, as crianças tiveram a liberdade para realizar seus movimentos conforme suas potencialidades. Apesar do conteúdo ser baseado no atletismo clássico, em suas modalidades de correr, saltar e arremessar, que são também os marcos iniciais das vivências motoras dos alunos, assumimos, assim, os alunos como protagonistas na realização dos movimentos. Flexibilizou-se o modo como tradicionalmente conhecemos as modalidades de atletismo para que todos, independentemente de suas limitações, pudessem participar.

 

 

É importante considerar que:

 

1. SALTO
CONCEITO: Atirar-se de um lugar para o outro,
POSSIBILIDADE: Passar de um lugar para o outro

2. LANÇAMENTO:
CONCEITO: Arremessar esferas com força;
POSSIBILIDADE: Abandonar um peso em determinado ponto

3. CORRIDA
CONCEITO: Tarefa que aplica-se tempo/velocidade;
POSSIBILIDADE: Tarefa que aplica-se tempo/velocidade individual.

 

No circuito, não há caráter competitivo mas, sim, de superação de limites pessoais e aumento da autoestima e autoconfiança, respeitando a deficiência do aluno que executa, sem tempo cronometrado, ou previamente estabelecido. Nesse projeto, o mais importante é a participação e conclusão das tarefas propostas e não especificamente quem chega em primeiro lugar, quem arremessa mais longe, ou quem pula mais alto. O que vale mesmo é conseguir realizar todas as estações.

 

O funcionamento do circuito e suas estações:

 

Os alunos iniciaram o circuito acompanhados de suas professoras das salas comuns, em grupos de 20 alunos, divididos em duas colunas de 10 alunos cada. Em cada estação, além das professoras, estão colaborando os alunos do 7º ao 9º anos, que ajudaram na orientação dos alunos menores, sempre com a supervisão do professor de educação física e das professoras. Após a realização por todos os alunos da primeira estação, estes foram conduzidos para o próximo desafio. Neste momento, entrou outro grupo e foi iniciada a primeira estação, e assim, sucessivamente, até que todas as estações estivessem ocupadas, com os alunos realizando simultaneamente o circuito.

 

Durante a realização do movimento, o próprio aluno pôde alterar, conforme suas possibilidades, as distâncias horizontais e verticais, o tempo de realização, a velocidade e força de execução, para que, fazendo as aproximações necessárias, pudesse vencer o desafio do seu jeito. Portanto, não há imobilidade, mas uma contínua possibilidade de se movimentar conforme as possibilidades e criatividade do aluno. É importante salientar que técnicas de iniciação no atletismo são ensinadas durante as aulas e também fazem parte do circuito, mas não possuem um fim em si mesmas. Antes, fazem parte de todo o processo de aprendizagem.

 

O mini-atletismo escolar inclusivo contém as seguintes estações:

 

1º salto sobre a corda elástica

2º salto triplo sobre os pneus

3º salto cruzado sobre os pneus

4º ,salto em distância,

5º corrida com obstáculos de garrafas pet’s

6º arremesso de peso

7º lançamento de cabo de vassoura

8º salto com vara de bambu

9º corrida de revezamento de bastão

 

Depoimentos sobre o progresso notado e os avanços adquiridos:

 

Nós, que compomos a equipe gestora da escola, acreditamos que, com o projeto do Circuito de Mini Atletismo Escolar, alcançamos a transformação do olhar que temos sobre as pessoas com deficiência. Professores, pais e alunos vivenciaram uma intervenção educacional que contemplou todos os sujeitos, com toda a diversidade do mundo infantil,  garantiu os direitos dos alunos com deficiência e trouxe a possibilidade de visualizarmos uma comunidade escolar mais justa e solidária. O trabalho interdisciplinar entre docentes, a credibilidade e o apoio da equipe gestora e demais funcionários da escola nesse projeto foram fundamentais para o alcance dessa transformação.“, direção e coordenação pedagógica da Escola Municipal de Educação Infantil Profª. Terezinha Souza.

 

Rosilene Baracho conta que o filho sempre gostou muito de ir à escola. Uma das motivações é o atendimento educacional especializado dado aos alunos com deficiência. Mas foi a partir do mini atletismo que Douglas Baracho passou a se relacionar mais com os outros espaços e colegas da escola, e também a se interessar pela atividade física. Este aluno foi diagnosticado com baixa visão, hiperatividade e deficiência intelectual.

 

Antes, ele não conseguia fazer  muitas coisas. Há três anos na escola e participando do mini atletismo, ele já está bem melhor, mais participativo, os colegas gostam muito dele e o respeitam. Além disso, fazer uma atividade física é fundamental”.

 

Por fim, acredito que este projeto trouxe à escola uma proposta de trabalho com todos e para todos. No início da execução das atividades, nas aulas de Educação Física, percebemos que estávamos alcançando o objetivo dele pois, no momento do circuito, cada aluno, individualmente, mostrou seu potencial e sua capacidade de superação pessoal. Observamos que, além do empenho, o componente “diversão” é inerente às atividades, pois todos se divertem, as crianças, os professores e demais envolvidos. No transcorrer do circuito, temos também uma verdadeira torcida, que motiva a todos não pelas colocações, mas sim pela participação em si.

 

O que me motiva, também, é ver que os pais e familiares deixam o receio de verem seus lidos em situações coletivas,  ou de exposição, de lado, pois a dinâmica cooperativa do mini atletismo inclusivo elevou a atividade para um ambiente de valorização de todos os participantes.

 

Este trabalho contou com o apoio de: Claudia Upton (Diretora), Edselma Nascimento, Lena do Nascimento (AEE), Rossicleide Silva, Rosangela Andrade, Eliana Gouvêa (coordenação pedagógica), Socorro Valesi, Carmem Silva, Esther Almeida ( Sala comum), Mauro Miranda, Iracema Mattos, Alessandra (biblioteca), além dos pais e alunos do 6º ao 9º ano, que atuaram como auxiliares.

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