A professora do ano

por: Entretanto

Uma jornada improvável

 

Kelisa Wing reprovou a primeira série.

 

“Eu não conseguia colorir dentro das linhas”, conta ela.

 

Atualmente, Kelisa é eleita “A Professora do Ano de 2017” do Departamento de Defesa da Atividade Educacional (DoDEA) dos Estados Unidos. A DoDEA é uma das únicas organizações financiadas pelo governo federal, composta de seis distritos escolares com mais de 7 mil professores, que lecionam para aproximadamente 80 mil alunos.

 

O título de honra concedido à Kelisa é decorrente do trabalho de apenas quatro anos como professora. Sua jornada para chegar até aqui levou muitos anos — e muito trabalho.

 

Um chamado para participar da vida de crianças

 

“Quando eu estava na primeira série, estava vivendo um contexto de muitos conflitos familiares”, recorda Kelisa. Meu professor daquele ano simplesmeste me reprovou e nunca parou para tentar descobrir o que estava acontecendo com sua aluna, que sempre ia tão bem nos estudos”, conta ela.

 

Dez anos mais tarde, um tipo diferente de professor teve uma abordagem totalmente diferente.

 

“Uma das minhas professoras do ensino médio me disse que eu deveria trabalhar com crianças”, conta Kelisa. “Eu pensei que ela fosse louca, mas ela insistiu nessa história — e recomendou que eu trabalhasse como conselheira de acampamento”.

 

Kelisa conta que a experiência foi intimidante no início — mas mudou sua vida: “Certo dia, algumas crianças estavam brigando no acampamento e eu consegui separá-las e fazê-las conversarem umas com as outras, a fim de perceberem que eram todas iguais. Foi naquele momento que eu soube o que eu queria ser na vida das crianças”.

 

Uma mudança na carreira

 

Conhecer a sala de aula foi um novo desafio: “Eu queria ir para a faculdade e conseguir um diploma na área de ensino, mas minha mãe ganhava acima do que era permitido para que pudéssemos receber ajuda financeira, mas, ao mesmo tempo, não tínhamos dinheiro o suficiente para pagar a faculdade. Foi muito decepcionante”.

 

Kelisa conta que sua mãe não gostava muito da ideia de sua filha tornar-se professora: “Ela foi bem taxativa ao dizer que não faria nada para aumentar nossa renda. As coisas pioraram após frequentarmos uma feira de faculdades realizada no ensino médio”.

 

“Após caminhar pela sala, eu simplesmente fiquei muito nervosa”, conta Kelisa. “Foi então que, por coincidência, eu conheci um recrutador do exército e sua esposa. Ele disse: ‘Estou oferecendo bolsas de estudo de quem quer ingressar na faculdade’”. Esse era o único empurrão que Kelisa precisava.

 

A conquista do diploma

 

Kelisa passou seis anos no exército “amando”. Ela também conheceu seu marido lá. Ele havia sido enviado para uma cidade de Kentucky. Kelisa estava na base de uma cidade do Tennessee.

 

“A separação passou a atrapalhar”, ela conta. “Eu precisava fazer uma escolha entre os militares ou a minha família”. Ela escolheu a família — e deixou o exército.

 

“Segui meu marido em suas implantações militares pelo mundo todo”, ela conta, “nós começamos uma família — e eu comecei a frequentar a escola à noite e aos finais de semana para adquirir meu diploma”.

 

Uma paixão infindável

 

Kelisa encontrou uma maneira de trabalhar em quase todos os empregos relacionados à educação, na medida em que acompanhava seu esposo nas implantações militares e nas transferências de uma base para outra.

 

“Fui professora substituta, assistente de sala de aula, secretária, administradora”, ela conta. “Eu fiz todas essas coisas enquanto me preparava para o mestrado — tudo o que eu queria era estar com crianças. Até que, finalmente, conquistei o cargo de professora; Fui para casa e chorei, fiquei tão feliz. Lembro-me de dizer a uma professora veterana que eu não conseguia acreditar que eu seria paga para fazer aquele trabalho”.

 

Foi aí que ela confirmou sua vocação: “Ela me disse para encontrá-la após cinco anos de prática de ensino para ver se ainda existia a mesma paixão”, ela conta. “E eu não a perdi. Esse é o melhor emprego do mundo”.

 

Conexões e desafios militares

 

No sistema DoDEA, há desafios bem difíceis e específicos para professores. “Os pais são implantados em bases militares, muitas vezes, bem distantes de seus lares, e permanecem nessas implantações por longos anos”, comenta Kelisa. “Durante uma dessas implantações, um de meus alunos perdeu o pai no Afeganistão. Porém, também podemos afirmar que essas crianças conheceram o mundo todo”, diz Kelisa. “E sou capaz de me conectar com a maioria dessas experiências: ex-soldada, esposa de militar e mãe”.

 

Um aluno problemático pode mudar

 

Um dos alunos de Kelisa apresentava um comportamento um tanto preocupante. “Isso aconteceu no meu terceiro ano de experiência em sala de aula, onde tive esse aluno que se envolvia em praticamente todos os dramas ocorridos na sala de aula — desafiando abertamente os professores”, conta Kelisa.

 

“Em um determinado dia, ele estava causando muitos problemas, porém, continuei dando a minha aula e, calmamente, coloquei um bilhetinho na mesa dele pedindo para que falasse comigo após a aula”. Eles se sentaram e tiveram a primeira de muitas conversas valiosas. Por fim, foi decidido junto de seus pais que ele se sentaria na frente, bem próximo à mesa de Kelisa durante as aulas.

 

Kelisa começou a treinar a equipe de atletismo e o incentivou a participar. “Ele me disse que nunca havia corrido antes, mas topou o desafio e aquela equipe passou a construir laços, tornando-se uma família”, ela conta.

 

 

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Observando a transformação de um jovem aluno em adulto

 

Esse aluno está, atualmente, no terceiro ano do ensino médio. “Ele quer ser professor de educação especial”, diz Kelisa. “E ele irá para a força aérea, conforme me disse há algumas semanas. E ainda afirmou: ‘Você salvou a minha vida’”.

 

“Ele disse: ‘você me forçou a aprender, me disse que eu conseguiria’. Vê-lo-alcançar essa posição, após todos esses anos, foi uma experiência incrível — eu o vi crescer, tornando-se um homem”, diz Kelisa, toda orgulhosa.

 

Defendendo a profissão

 

Kelisa acaba de escrever um livro que chamado: “Ervas daninhas e sementes: Como manter-se positivo em meio as tempestades da vida (Weeds and Seeds: How to stay positive in the midst of life’s storms)”. A Professora o Ano está viajando muito para vários distritos da DoDEA para compartilhar a sua experiência — e inspirar seus colegas.

 

“Não quero que existam mais professores como a minha professora do primeiro ano. Posso não ser a melhor professora em sala de aula, mas me conecto aos meus alunos — este é o segredo — eu me relaciono muito bem”, ela diz.

 

“Não é apenas uma honra servir àqueles que servem, é uma honra ser uma defensora da minha profissão”, diz Kelisa. “Poder levar a honra e o prestígio da nossa preciosa profissão tem sido o ponto principal de ter sido eleita a professora do ano de 2017 do Departamento de Defesa da Atividade Educacional. É muito legal ser professora”.

 

Recentemente, de volta à sua cidade natal, Ohio, a mãe de Kelisa foi encontrá-la no aeroporto. Ela não é mais cética em relação à escolha da carreira da filha. “Ela estava usando uma camiseta com os dizeres: ‘minha filha é a professora do ano’. Ela está muito orgulhosa”, conta Kelisa.

 

Texto originalmente publicado em Pearson Learning News.

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