Pequenos doutores da alegria

por: Carla Borges

Em fevereiro de 2017, a direção da Escola Municipal Antônio Pinheiro Diniz em Sarzedo – MG passou a todos os professores que o tema da festa da família daquele ano seria alegria e solidariedade, tendo como culminância a apresentação dos trabalhos realizados pertinentes ao tema. Para tal, pensei que tais valores deveriam ser mais bem compreendidos nas ações vivenciadas pelas crianças, certas de seu potencial e acreditando que solidariedade são exemplos que passamos a nossas crianças e estas alegrias fazem a diferença.

 

Vivemos em uma sociedade cada dia mais individualista. Pessoas buscam somente alegrar a si mesmo, esquecendo-se de valores simples como a solidariedade e a vontade de levar alegria a aqueles que necessitam.

 

Como é possível ensinar as crianças a serem solidárias? A solidariedade é um valor que pode ser definido como a tomada de consciência das necessidades dos outros e o desejo de contribuir e colaborar para a sua satisfação. Trata-se de um valor que se deve incentivar tanto na família como na escola, assim como em outros âmbitos.

 

 

Projeto

 

Para trabalhar este tema, com os alunos do 2º período da educação infantil, de 5 anos de idade, criei os Pequenos Doutores da Alegria, baseado no trabalho dos doutores da alegria em instituições hospitalares e adaptei à idade das crianças, tendo em vista aliar arte a alegria e solidariedade, tema proposto a se trabalhar na cidade de Sarzedo – MG, na Escola Municipal Antônio Pinheiro Diniz, onde envolvemos toda a comunidade escolar.

 

Para dar início, realizei uma roda de conversa com os alunos sobre o tema alegria e solidariedade. Conheceram a história “Como nasceu a alegria”, de Rubem Alves, que trata de uma florzinha que era diferente das demais, e teve a solidariedade dos personagens para com ela, descobrindo que da tristeza pode nascer à alegria. Fizemos uma reflexão sobre o respeito que devemos ter com todas as pessoas que nos cercam e também a importância de aceitarmos as diferenças que existem entre todos nós.

 

Realizamos ainda, uma encenação da narração e gravamos um vídeo onde as crianças responderam o que é solidariedade? Após esse vídeo, agendei uma reunião com os pais da turma para que o projeto fosse apresentado e o vídeo assistido pelos pais, para que juntos avaliássemos os conhecimentos prévios das crianças sobre o tema, discutindo juntos as etapas do projeto. O envolvimento foi cativante, pois os pais sentiram-se valorizados e surpresos com os relatos dos filhos.

 

Desde o primeiro dia de aula, apresentei aos pais minha página de trabalho em uma rede social. Eles autorizaram e puderam acompanhar as atividades desenvolvidas com seus filhos e ainda sentiram-se mais próximos de todas as etapas do projeto. Após este dia, durante as aulas, foi ilustrada e encenada uma página do livro citado acima, refletindo sobre cada parte, além de ensaios com a música escolhida como tema do projeto, ensaios de coreografia feitos por mim e ensaio vocal com a professora de música uma vez por semana na escola e sequenciados por mim em minhas aulas.

 

Durante o projeto, tínhamos como meta levar as crianças para realizarem o trabalho proposto, sendo assim, realizei com apoio da direção, uma campanha para arrecadar doações para levarmos a instituição infantil de acolhimento a criança com câncer – CAPE em Belo Horizonte – MG, a qual visitamos vestidos de “Doutores da Alegria”. Para que conseguíssemos arrecadar, entramos em contato com a instituição apresentando nossa proposta e sugestões de doações e condições para a visitação. Para que o envolvimento fosse maior, resolvi pedir a todas as turmas da escola, onde enviei bilhetes explicando nosso projeto. A comunidade se envolveu e durante as datas de recebimento das doações, meus alunos passavam de sala em sala recolhendo e agradecendo toda a ajuda. Ao levar as doações para a sala, as crianças ajudavam na organização de todo material recebido, dentre eles, alimentos, brinquedos, roupas e calçados.

 

A visita aconteceu no dia 26 de abril de 2017, saímos de nossa escola caracterizados e cantando em capela, onde as turmas puderam assistir nossa saída, todos estavam eufóricos e cativados com aquele momento. A equipe escolar também se mobilizou para nos acompanhar até o local da visita, indo conosco a diretora, pedagoga da educação infantil, coordenadora e fotografo do município e a professora de música da escola, a qual convidei para enriquecer a apresentação que eu havia preparado. Nesta visitação, as crianças foram com a proposta de levar alegria, atenção e doações para outras crianças. Ao chegar ao local, nos apresentamos e fomos conhecer a instituição.

 

Realizamos apresentações musicais e brincadeiras para o público alvo da visitação, durante esse momento os alunos interagiram com as crianças da instituição, que participaram da nossa roda de música, leitura de livro na biblioteca da instituição e entrega de brinquedos a crianças que estavam presentes. Esta visitada foi registrada por fotos e vídeos complementando nosso acervo do projeto.

 

Continuando o projeto, realizei uma roda de conversa sobre a experiência vivida pelos alunos, onde se expressaram e relataram o que mais gostaram. Os pais estavam ansiosos para ver este trabalho e, dando sequencia, continuamos a trabalhar com o livro, preparando uma exposição para o dia 20 de maio de 2017.

 

Realizei outro encontro com os pais e apresentei-lhes a letra da música tema, dando-lhes como tarefa ensaiar em casa para cantar em capela conosco e com seus filhos no dia do evento.

 

Para o dia da exposição (festa da família), tinha como proposta a interação da comunidade aguardada no evento, preparei as crianças para receber a comunidade com muita música, flores e muita alegria, tendo em vista que tivemos nosso espaço de exposição, pois no evento aconteciam outras exposições de trabalhos dos professores da escola, cada um com seu tema. E para enriquecer convidei um grupo de jovens da comunidade para se caracterizarem como nós, para que pudessem junto conosco interagir com a população, preenchendo os espaços da escola com muita alegria.

 

Em nossa exposição, apresentamos um mural feito com o carimbo das mãozinhas dos alunos, ilustrando o livro trabalhado, fotos da visitação e uma oficina, onde cada visitante escolhia sua cor e carimbava um mosaico com as mãos, construindo a ideia que de mãos dadas compartilhamos alegrias. Durante todo evento realizamos apresentações no palco principal, em uma delas foi convidado todos os alunos da escola para junto da minha turma cantarmos solidariedade e outra apresentação tão aguardada, foi onde realizamos a contemplação de nosso projeto, apresentando a música que foi tema de todo o projeto, tendo a participação dos pais que cantaram conosco em um momento de capela maravilhoso, mostrando que quando há parceria, envolvimento conseguimos feitos maravilhosos e aprendizados para a vida toda.

 

Durante o projeto, foi realizado os trabalhos na sala de aula da turma, sala de música da escola para os ensaios, sala de balé para a coreografia, pátio onde realizamos pintura de painel com as mãos, jardim da escola onde gravamos um vídeo pedindo a comunidade para ajudar nas doações. Tais espaços são aproveitados para os alunos, pois nesta mesma escola acontece aulas de balé, música como parte do currículo da cidade. Espaços favoráveis e estimuladores artísticos, pois saímos da rotina de sala de aula e exploramos todos espaços que a escola nos oferta.

 

As criações de fotos e vídeos foram autorizadas pelos pais, pois usamos nós mesmos para a produção destes, além de ler sobre os Doutores da Alegria, tal qual para apresentar as crianças adaptei para a idade, contando-lhes sobre o trabalho que estes voluntários fazem em hospitais, e que faríamos também, porém em instituições que era autorizado nos receber conforme a idade das crianças.

 

Ao trabalhar o tema, tive como objetivo, contribuir com a formação moral da criança. A educação para o bem desenvolve diversos aspectos, envolvendo regras e preceitos o que se deve e o que não se deve fazer no convívio com o outro, envolve a prática reiterada dos bons hábitos e atitudes de solidariedade e aliado a arte podemos criar e oportunizar diversas realidades.

 

 

Importância

 

Oportunizar a criança, através de ações diárias, situações que o levem a desenvolver relações de amizade, para a construção do respeito e partilha.

 

Transmitir valores como autoestima, paz, respeito às diferenças, amor ao próximo, amizade e solidariedade, visando contribuir na formação do caráter da criança, compreender a necessidade de conviver com as pessoas, adotando atitudes de respeito, refletir sobre a importância de sermos solidários e compreender as diferenças aliadas a um trabalho artístico lúdico e divertido para as crianças

 

Para trabalhar o tema, aliei a música, encenações teatrais, vivências próximas a realidade dos alunos e interesse destas mesmas pelo fazer artístico.

 

O projeto desenvolveu os seguintes conteúdos curriculares:

 

Linguagem oral e escrita: Ampliação do vocabulário e aprendizagem da linguagem oral e escrita é um dos elementos importantes para as crianças ampliarem suas possibilidades de inserção e de participação nas diversas práticas sociais. O trabalho com a linguagem se constitui um dos eixos básicos na Educação Infantil, dada sua importância para a formação do sujeito, para a interação com as outras pessoas, na orientação das ações das crianças, na construção de muitos conhecimentos e no desenvolvimento do pensamento.

 

Música: A integração entre os aspectos sensíveis, afetivos, estéticos e cognitivos, assim como a promoção de interação e comunicação social, conferem caráter significativo à linguagem musical.

 

Artes: Tal como a música, as Artes Visuais são linguagens e, portanto, uma das formas importantes de expressão e comunicação humanas, o que, por si só, justifica sua presença na educação infantil.

 

Identidade e Autonomia: A construção de imagem positiva requer que, na escola, as crianças tenham experiências em situações que permitam que elas ganhem confiança em suas capacidades e que sejam vistas como crianças com possibilidades. Isso dá segurança, que é um elemento básico para atrever-se a explorar novas situações, novas experiências. É importante observar que não se trata de renunciar à exigência e ao controle, e sim, de endereçá-Ia a um contexto comunicativo, afetuoso e respeitoso.

 

O projeto foi fundamento conforme o referencial curricular da educação infantil, contextualizado conforme o previsto para a etapa escolar, onde para o eixo arte podemos dizer tal como a música, as Artes Visuais são linguagens e, portanto, uma das formas importantes de expressão e comunicação humanas, o que, por si só, justifica sua presença no contexto da educação, de um modo geral, e na educação infantil, particularmente.

 

Observou-se as ações das crianças quanto ao tema, melhor desenvolvimento em dança, música, melhor desinibição, autonomia, amor ao próximo, colaboração em sala e fora do espaço escolar, preocupação com o próximo e muito amor uns pelos outros foram observados durante este projeto. O projeto foi registrado através de vídeos e fotos, rodas de conversa antes e depois do tema tratado.

 

Foi realizado postagens na minha página de trabalho  na internet, para que os pais também pudessem acompanhar cada etapa vivenciada pelos filhos, em fotos, vídeos, e produções artísticas.

 

Notamos, ao longo deste projeto, que a comunidade se atentou para tal valor que muitas vezes é esquecido, compreendendo que solidariedade se ensina com exemplos consequentemente levaremos a alegria. Percebeu-se ainda a importância de começar trabalhos artísticos, musicais com as crianças na educação infantil, reconhecendo seu potencial e percebendo que a diferença está nos olhos de quem vê, pois os alunos internalizaram o projeto, transformando-se em doutores da alegria, com a missão de ajudar onde transformaram o local visitado em um ambiente alegre e tal expressão artística levou as crianças da instituição a se juntarem a nós, dançando e cantando. Quando aliamos nosso trabalho à manifestação artística, temos um poder imensurável.

 

Percebeu-se que com, este trabalho, revelei dons artísticos de crianças aos 5 anos, pois muitas seguirão por este caminho da arte. Sendo assim,  por que não  fazer parte do grupo de voluntários Doutores da Alegria futuramente? A satisfação maior é você notar ações do dia a dia, mudança de posturas, solidariedade entre colegas, excluindo preconceitos expostos pela sociedade, descobrindo que muitos projetos nos levam a se descobrir e a descobrir novos caminhos e rumos para a educação. O projeto permitiu uma experiência muito enriquecedora, que as pequenas alegrias fazem a diferença e devemos valorizar tais momentos, e que a escola seja um facilitador, ambiente estimulador de uma sociedade melhor e com grande potencial.

 

O projeto seguiu até o fim do ano letivo, envolvendo mais ações, criamos ainda o livro: Pequenos Doutores da Alegria em: Uma escola encantada, escrito por mim e ainda um varal solidário na porta da escola . Posteriormente houve a culminância de todos trabalhos em uma exposição para a comunidade, bem como mais apresentações artísticas e agradecimentos de um projeto tão inspirador, que foi aclamado pelos pais, escola e comunidade.

 

Desde que iniciei minha carreira em 2012, venho trabalhando para que eu possa enxergar sempre além dos muros da escola. Avalio que a proximidade com os alunos, famílias, faz nosso trabalho ser mais significativo. Quando recebi a proposta de trabalho este ano com o tema alegria e solidariedade, não pensei diferente, quis aproximar ainda mais famílias, escola e comunidade, logo me atentei para realizar ações que vão além do que estamos acostumados. Penso que temos em nossas mãos um grande poder, que são nossos alunos e instigá-los, confiar em seus potenciais faz nosso dia a dia ser gratificante.

 

O projeto Pequenos Doutores da Alegria,me fez acreditar ainda mais que podemos fazer a diferença. Podemos cativar pessoas, estimular outros colegas de trabalho, recuperar sonhos, aumentar os laços familiares, valores. A cada etapa desse projeto vi a importância de sermos bons, de valorizarmos as coisas simples e que pequenas alegrias fazem um bem enorme para quem o recebe e somos melhores para nós mesmos.

 

Vivi um momento mágico, pois meus alunos deram muito mais do que propus a eles, deram uma lição de alegria, solidariedade, mostrando que criança sendo criança nos passam valores que nos emocionam e nos fazem ser pessoas melhores. Sinto-me realizada, pois os resultados foram além do que esperava quando escrevi e apresentei ao projeto e aumentou ainda mais a vontade de ser uma educadora que busca conhecimento, que acredita que podemos ser o que quisermos quando temos força de vontade e amor pelo que fazemos.

Receba nossa News

A Educação é feita da união de conhecimentos. Preencha seu e-mail e receba nossos conteúdos atualizados!

*Não lote sua caixa de e-mail. Nossas newsletters são enviadas quinzenalmente e trazem um resumo dos melhores conteúdos publicados.