O lúdico na educação infantil

por: Érica Braz

Era uma vez…uma história real:

 

Quando eu tinha por volta dos 5 anos, já estudava em uma escola pública estadual. Era a fase do jardim de infância e me lembro bem daquele período da minha pequena vida. Quando ouvi minha mãe dizer que eu iria para escola, quase enlouqueci. Como assim, escola? Não imaginava o que me esperava, então, meu desespero infantil foi grande. Os primeiros dias foram difíceis, pois eu só sabia chorar. E pense naquela criança, que nada consola e nada afaga. Muito prazer, essa criança era eu.

 

Os dias foram passando, e finalmente, consegui abrir meus olhos para perceber que, ao meu redor, tinha um mundo encantado muitas cores pelas paredes, brinquedos coloridos, crianças e uma “tia” fascinante.

 

O nome dessa incrível mulher era Sandra. Ela me recebia com beijos, cheiros e abraços cheios de amor. E onde estava essa mulher esse tempo todo? Escondida atrás do meu escândalo diário.

 

Cada dia que se passava eu descobria que aquela mulher era mágica, pois um dia era a Tia Sandra, em outro era uma fada, em outro era a personagem Priscila da TV Colosso….

 

Minha admiração por essa professora crescia ilimitavelmente. Ela cantava, sorria, rolava no chão, na aula de ginástica… Até no recreio ela estava lá, correndo no campo de terra seca. Era incrível a maneira como ela nos tratava e conduzia as aulas. Até seu colo aquela pessoa maravilhosa oferecia.

 

O ano letivo foi chegando ao fim e eu não entendia muito bem o que isso significava, só percebi que não era tão agradável quando ela me entregou um bloco de atividades que eu fizera ao longo desse período e, com esse bloco, me abraçou com lágrimas nos olhos.

 

Chegou o momento das férias. Eu, entediada em casa e vendo minha mãe atarefada com um irmão recém chegado à nossa família (sim, ela teve um bebê naquele momento e toda atenção era para aquele serzinho minúsculo), eu só pensava em uma coisa: “cadê a Tia Sandra e seus abraços quentinhos?”.

 

Me lembro que. durante todo o período de férias, perguntava inúmeras vezes se os dias de ficar em casa já estavam chegando ao fim, e a resposta era sempre a mesma: “Falta pouco!”.

 

E um dia, para minha alegria, ouvi minha mãe dizer: “amanhã cedo voltam as aulas”.

 

Fiquei radiante! Acordei, tomei um banho, um delicioso achocolatado e acordei minha mãe toda feliz, dizendo: mãe já estou pronta, me leva? Minha mãe acordou, meio brava, e disse: “Érica, são duas da manhã, vai dormir!”.

 

Poxa vida, minha empolgação era tanta que dormi umas três horas apenas, e estava tão animada que nem voltei a dormir.

 

Quando finalmente deu a hora de ir, fui cantarolando contente pelas ruas. Cheguei à escola e me disseram que minha sala não era mais aquela colorida perto do pátio. Tudo bem, teremos uma sala maior e, de repente, mais colorida? Foi aí que me conduziram até a sala nova, onde estava uma senhora sentada à mesa que não era a tia Sandra. Ela olhou para mim e disse: “Bom dia. Eu sou a Tia Ieda e vou ficar com você até o fim do ano”.

 

Meu grande sorriso banguela se fechou na mesma hora. Pouco tempo depois, começou a chover.

 

Sentei em uma mesinha ao canto da sala. Quando olhei para fora, vi minha Tia Sandra. Sorri para ela e ela acenou para mim, mandando beijos de volta. Porém, ela tinha várias crianças diferentes ao seu redor e foi com elas correr na chuva, sem mim.

 

Os dias foram se passando e eu sempre na janela, vendo a tia Sandra enquanto ela cantava, fazia roda no pátio com pandeiros, rasgava papéis e jogava-os para cima, brincava de mangueira… De todas as brincadeiras possíveis. Enquanto isso, dentro da minha sala nova, havia aquela professora que escrevia letras no quadro negro e nem sorria.

 

Os anos voaram, fui crescendo e tomei uma decisão na minha vida: queria estudar e me formar em “tia Sandra”. Então, aos 18 anos me formei em professora de educação infantil, aquela que a cada dia é recebida com olhares curiosos, brilhantes e à espera de novidades.

 

Percebi que as crianças são moldadas por nós, pelos nossos princípios e valores. Meu foco diário é que a criança deve aprender brincando, vivendo de magia, imaginação; o lúdico em sua vida é necessário.

 

Eu aprendi com aquela mulher maravilhosa que eu não posso apenas contar uma história, eu tenho que entrar no personagem e fazer as crianças entrarem na história. Hoje, com uma simples história de dinossauros, consigo colocar tanta intensidade que os alunos até “veem” ela na sala de aula.

 

Atualmente, minha turma é formada por pequenos de três a quatro anos. Eu ensino e aprendo com eles diariamente.  Enxergo o mundo pelo olhar dos meus alunos e a minha sala de aula é cada dia mais cheia de vida! Já acampamos com lençóis, construímos histórias, fizemos maquetes, transformamos recicláveis em animais, e em todos esses projetos eles são os produtores e artistas.

 

Eu desejo ser lembrada como aquela que trouxe o colorido para a vida dos nossos pequenos. Quero que os olhos deles brilhem assim como os meus brilhavam ao lembrar da minha tia Sandra.

 

Agora, percebam a importância que aquela professora teve para mim. Mudou um destino, uma vida e me inspirou.

 

Com essa história, proponho a seguinte reflexão: não sejam aquele (a) professor (a) tradicional que apenas risca o quadro negro. Faça a diferença e marque aquelas vidas.

 

Hoje, levo para minha sala de aula, um mundo colorido e cheio de ludicidade. Posso dizer, com muita propriedade, que eu sou mais que uma Sandra, pois os tempos mudaram e temos ferramentas maravilhosas, como novos formatos de materiais didáticos, em nossas mãos.

 

Podemos transformar o mundo com a educação, criando pessoas cheias de si, que um dia vão crescer e dizer: “minha infância valeu a pena”.

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