A musicalidade do empoderamento feminino em sala de aula

por: Rodolfo Matiello

Infelizmente, vivemos em um país em que as mulheres sofrem muito com o comportamento inadequado de muitos homens e, até mesmo, de outras mulheres. Como professores, faz parte de nossa responsabilidade abordar esse assunto com maturidade em sala de aula. Acredito que nós, na posição de professores de línguas, somos responsáveis por levar aos alunos materiais atuais em língua inglesa para que eles possam refletir sobre a temática da violência contra a mulher.

 

Pra mim, uma maneira sensacional de se trabalhar o empoderamento feminino em sala de aula é usando nada mais, nada menos que as músicas dos Beatles.

 

A famosa e eterna banda de Liverpool é frequentemente mencionada como revolucionária, como os precursores do profissionalismo fonográfico e, também por suas baladas musicais. Ouvindo e vendo minha coleção de CD’s e DVD’s, percebi que muitas letras de suas músicas, principalmente as do início da banda, mostram uma força feminina muito interessante e completamente “groundbreaking” para aquela época.

 

Em seu segundo disco do início da década de 60, os Beatles abrem o álbum com a música “It Won’t Be Long”. Aparentemente, se trata de uma música romântica que costumeiramente mostraria a mulher em seu papel de submissa, apaixonada por um homem e que faz de tudo para não perder o parceiro. Porém, em sua genialidade, entrando na onda do empoderamento feminino do começo dos anos 60 na Inglaterra, a letra dessa obra dos Beatles conta justamente a visão contrária: o sofrimento de um homem que se submete a qualquer coisa para ter sua mulher de volta.

 

Essa ruptura de paradigma fica muito evidente quando, no refrão, eles cantam “‘til I belong to you” (até que eu pertença a você). No meio da mesma década, eles lançaram a música “Cry For No One” em que, mais uma vez, eles mostram a força das mulheres ao cantar a história de uma mulher que abandona o status quo da sociedade e larga do parceiro. A ruptura do comportamento tradicional fica evidente quando eles cantam “she no longer needs me”.

 

Historicamente, nós, professores, trabalhamos com o conceito de CLIL (Content and Language Integrated Learning) desde sempre. Afinal, não foi sempre que tivemos uma boa quantidade de materiais didáticos disponíveis e bem estruturados, sendo assim necessário buscar conteúdo fora dos livros. Hoje, passamos pelo momento de uma vastidão de quantidade de materiais autênticos que a internet proporciona, ou seja, estamos acostumados com a multidisciplinaridade em sala de aula.

 

Ao contrário do que muitos dizem, CLIL não é um método de ensino, ele é uma abordagem (Marsh, 2012), uma maneira de se dar aulas e, portanto, não tem uma receita a ser seguida fielmente. A língua inglesa vai se tornar a ferramenta a ser utilizada para que os alunos consigam desempenhar as tarefas propostas dentro de um outro contexto, isto é, o novo idioma vai deixar de ser objeto do estudo e se tornar o hospedeiro da informação, do significado que vai, então, ser o objeto de estudo e análise dos alunos (Marsh, 2012).

 

Incorporar CLIL nas aulas de língua inglesa das escolas atinge algumas vertentes do aprendizado da língua: consciência comunicativa, aprendizado da gramática e identidade. Ou seja, o resultado é a geração de alunos bilíngues ativos, uma vez que eles acabam por entrar em contato com o que a língua pode realizar e não simplesmente organizam palavras e produzem frases. O aprendizado da nova língua e o conceito de bilinguismo quebra o paradigma do ensino das palavras, números, cores, regras gramaticais, subordinações e etc, e se torna mais completo e plural com perspectivas que abrem espaço para discussões como, por exemplo, o empoderamento feminino.

 

Voltando as atenções aos quatro rapazes de Liverpool, é possível trabalhar questões de empoderamento das mulheres dentro de um plano de aula utilizando a multidisciplinaridade (CLIL). Músicas em sala de aula, muitas vezes, tem somente sua superfície explorada pelos professores quando promovem atividades em que os alunos precisam ouvir a música e prestar atenção somente nas palavras ou em frases que são cantadas.

 

Uma música tem muito mais profundidade. O objetivo principal da atividade é promover a reflexão e discussão sobre o empoderamento feminino e esse tema é trabalhado nas letras das músicas dos Beatles, isto é, trata-se de uma atividade de listening que pode ter desdobramento para outras habilidades. Antes de entrar para a música em si – escolhi a canção “She’s Leaving Home”, do álbum Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band, é importante se lembrar de preparar os alunos.

 

Você pode começar levantando a discussão sobre a falta de voz e visibilidade que as mulheres historicamente têm, paradigma do qual elas vêm lutando contra, ou sobre quais atividades e comportamentos que a sociedade esperava/ainda espera das mulheres. Daí, pode-se trabalhar o conteúdo com algumas expressões idiomáticas (to go downstairs, to clutch an object, to step outside, to pick up, to stand alone, to break down).

 

“She’s Leaving Home” conta a história de uma moça que decide sair da casa de seus pais para viver uma vida mais livre, em que ela possa tomar suas próprias decisões e não se preocupar com as aparências. Após preparar os alunos previamente, você pode realizar perguntas de compreensão com relação à letra da música, como: “what time did she leave home?”, “did she leave a note to her parents?”, “did she take anything with her?”, “was she near her house at 9am?”.

 

Em seguida, pode fazer transição para perguntas abertas de interpretação, como “why was she clutching a handkerchief?”, “why were her parents surprised with her attitude?”, “did she live alone because she had no friends nor siblings?”. Para finalizar, você pode fazer uma follow-up activity junto com um bring-your-own-device (BYOD) day, ou, ainda, pedir que os alunos realizem em casa o trabalho de pesquisar o que a sociedade aceitava que as mulheres fizessem antes e comparem com os dias atuais. No final, os alunos pensam como eles podem conscientizar sua comunidade para que as mulheres consigam ter mais avanços na questão da igualdade de direitos e liberdades.

 

Quando temos a mistura de quatro artistas geniais (e gênios são atemporais) como foram os integrantes da banda com um conceito de aula que nos permite explorar a língua em sua plena manifestação, facilitando não somente sua aquisição mas também seu uso, o resultado é o aprendizado de uma língua que, de fato, vai ter impacto na vida das pessoas, e não ficar somente internalizada dentro delas.

 

Independente de ser com CLIL ou qualquer outra abordagem pedagógica de ensino de línguas estrangeiras, seu aprendizado deve ser tal que os alunos possam desempenhar tarefas através da utilização desse novo idioma, como contribuir para a reflexão da realidade da vida das mulheres no Brasil. Quem sabe é possível utilizar a língua inglesa para que os alunos das novas gerações possam contribuir por um cenário de mais respeito pelas mulheres??

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