Metodologias ativas na educação: o fim do mundo?

por: Sandro Ribeiro

Será que em dois mil e dezoito anos d.C. vivemos um fim do mundo? Depende de qual fim estamos pensando. Por exemplo: não há mais conforto em certas formas de lidar com o ensino e a aprendizagem. Professores e estudantes parecem incomodados com o sistema educacional. Por que será?

 

Sou professor há vinte e sete anos. Atualmente, pesquiso a área de novas metodologias de ensino e aprendizagem. Tanto no meu mestrado quanto agora, no meu doutoramento, mergulho nas práticas docentes em busca das comprovações advindas das novas práticas pedagógicas e andragógicas. Leciono em formação continuada de docentes e gestores escolares na Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro (RJ) e em dois programas de pós-graduação lato sensu. As disciplinas mais comuns são “Novas metodologias na prática docente” e “Tecnologias digitais na educação”. A faixa etária é muito variante (dos 18 aos 70 anos, geralmente).

 

Se lembrarmos da escola há cerca de trinta e poucos anos, em uma sala de aula do antigo segundo grau (o que chamamos atualmente de “ensino médio”) o professor, que era a única fonte de informações disponível, expunha seu conteúdo e, para que esse conhecimento fosse ainda mais absorvido, lançava mão de um trabalho para casa. Uma atividade que, quase sempre, vinha acompanhada da seguinte ordem:

 

“Tragam, na próxima semana, um trabalho em folha de papel almaço, pautada, no mínimo, por quatro páginas sobre o assunto da aula de hoje”.

 

Esse brado era frequentemente ouvido naquela época. Alunos e alunas buscavam nas fontes de informação disponíveis, ou seja, livros, enciclopédias, revistas e jornais, em casa ou na biblioteca da cidade. No dia marcado, lá estavam várias e várias folhas de papel, cheias de informações para o professor avaliar e comprovar a absorção mais efetiva do conhecimento.

 

Mudanças

 

De lá para cá, algumas mudanças ocorreram. Duas delas, ao meu ver, transformaram as nossas relações de aprendizagem: a primeira é a forma de acesso à informação e a segunda, diretamente influenciada pela primeira, é a união entre a forma de abordagem e o método.

 

Nos últimos anos, nossa rede de informações ampliou-se assustadoramente e as revistas, os jornais, TV’s, rádios e bibliotecas ganharam a companhia da grande rede mundial eletrônica, a WWW (World Wide Web), sistema em hipermídia que reúne várias mídias interligadas por sistemas eletrônicos de comunicação. A tradução literal de World Wide Web é “teia de todo o mundo” ou “teia do tamanho do mundo” e indica a potencialidade da internet, capaz de conectar o mundo como se fosse uma teia.

 

E agora? O sistema educacional vê-se emaranhado, envolvido e, às vezes, subjugado por essa teia de informações e conhecimentos, com características rizomáticas, ou seja,  que ramificam-se a partir de qualquer ponto, que coloca o modelo vigente em “cheque”, logo ele, a raiz do conhecimento de qualquer pessoa.

 

Como assim? Como a escola, a universidade e o professor não serão mais as fontes de informação dos alunos? Como lidar com essa transformação que não marcou horário e muito menos mandou aviso de chegada, que adentrou sem bater à porta e sem ao menos pedir licença? Seria o fim da transmissão da informação como única forma de metodologia do sistema educacional?

 

Metodologias ativas e a nova função das escolas

 

Na era da sociedade em rede, em que há abundância de informação e cujo acesso é muito facilitado, a escola e a universidade começam a perceber que suas funções sociais precisam ser reavaliadas. Se no passado recente eram tidas como um oásis no deserto, precisam agora lidar com um dilúvio de informações e auxiliar os estudantes a nadarem/surfarem nas redes digitais de comunicação.

 

Nesse contexto, o ato de somente transmitir informação deixa de ter sentido e passa a ser interessante também aprender a lidar com ela, a ponto de transformá-la em conhecimento. Com metodologias ativas, o foco deixa o conteúdo (a informação) e apega-se à aprendizagem e ao estudante. Transmitir ainda tem o seu valor, mas somente essa estratégia não dá mais conta da tecitura de conhecimentos constantes e mutantes.

 

Novas formas de ensinar emergem cada vez mais, assim como novas formas de aprender. Com as metodologias ativas, o compartilhamento de saberes e fazeres pode ser facilitado, e o professor – transmissor de informações –  passa também a construir e a tecer conhecimentos com sua atenção voltada para a aprendizagem e para o aprendiz. Por isso, adquirir conhecimento, e se capacitar em sua área, ajudará qualquer educador (a) a perceber a razão e o modo de aplicar metodologias ativas, que não são nenhum fim do mundo, mas, pelo contrário, estão vindo para somar  à sua prática docente.

 

As metodologias ativas funcionam de forma diferente da metodologia tradicional do ensino. Geralmente, temos aulas nas quais o docente “transfere” conhecimento e o discente “o recebe”, de forma passiva. Não há participação ativa do estudante na relação de aprendizagem mais comum. As metodologias ativas buscam romper com essa característica mudando, principalmente, o foco da aula para a aprendizagem do estudante, e não mais para o conteúdo proferido. Exemplos simples dessas metodologias: as rodas de conversa, os seminários e as dramatizações, mecanismos que alguns professores lançam à mão no dia a dia, muitas vezes, sem saber o quão vantajoso é permitir a participação ativa dos discentes na tecitura dos conhecimentos.

 

 

Destaco os dois melhores resultados das minhas próprias experiências com as metodologias ativas nas relações escolares: a possibilidade de desenvolvermos a autonomia e a colaboração entre os estudantes. Afinal, a comunicação e o colaboracionismo são duas disposições que, prevejo, facilitarão a sobrevivência harmônica e produtiva da sociedade.

 

Algumas dos autores que são minhas referências neste estudo: Latour, Morin, Freire, Gardner, Alonso/Galego e Dewey.

 

Leia mais sobre as metodologias ativas: 

 

Uma aprendizagem significativa é mais que uma aprendizagem.

 

Aprendizagem baseada em problemas: moda ou método?

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