Melhor sala de aula de Educação Infantil: por uma pedagogia da escuta

por: Rosemari Glowacki

A criança é feita de cem /A criança tem cem mãos / cem pensamentos/ cem modos de pensar/ de jogar e de falar/ Cem sempre cem/ modos de escutar/as maravilhas de amar. Cem alegrias/ para cantar e compreender./Cem mundos/ para descobrir/ Cem mundos/ para inventar/ Cem mundos/ para sonhar/ A criança tem/ cem linguagens/ (e depois cem cem cem)/ mas roubaram-lhe noventa e nove/ A escola e a cultura/ lhe separam a cabeça do corpo. (Trecho de As Cem Linguagens da Criança, de Loris Malaguzzi).

 

Leitor amigo, já se perguntou qual seria a melhor escola de educação infantil do mundo? Quis que ela existisse na quadra ao lado da sua casa para, ali, matricular seu filho e oferecer a essa criança a melhor educação?

 

O fragmento do poema acima, escrito pelo pedagogo e educador italiano Loris Malaguzzi, que reconhece cem e mais habilidades das crianças, resume a abordagem pedagógica presente na educação infantil de Reggio Emilia, cidade localizada ao norte da Itália, com cerca de 170 mil habitantes.

 

Essa experiência educadora foi reconhecida como a melhor do mundo em 1991. Criada por Malaguzzi, a linha pedagógica utilizada na educação infantil de Reggio Emilia, hoje, está presente em documentos e propostas pedagógicas de escolas ao redor do mundo.

 

Vamos conhecer, juntos, como a proposta foi idealizada?

 

Um pouco de história, leitor…  Com o fim da Segunda Guerra Mundial, muitas cidades da Europa, especialmente da Itália, estavam em ruínas, inclusive Reggio Emilia.  Mais que isso, não só os prédios estavam no chão, bem como a própria história sociocultural e política. Diante dessa situação, um grupo de moradoras de uma cidadezinha vizinha mobilizou-se para reconstruir não só as ruínas como também o local onde as crianças iriam estudar dali para frente.

 

A escola 25 Aprille foi construída a partir de um esforço comunitário, do qual o próprio Malaguzzi fez parte. A verba utilizada para a construção veio da venda de um tanque de guerra abandonado, de alguns caminhões e cavalos deixados pelos alemães em retirada.

 

As mulheres de Villa Cella, cidade no nordeste da Itália, próxima a Reggio Emilia, decidiram erguer e administrar uma escola para os filhos, pois todas as escolas da região haviam sido devastadas.

 

Essa escola ficou universalmente conhecida pela abordagem pedagógica para a educação infantil. Iniciava-se, neste momento, a reconstrução de ideias e redirecionamento da educação infantil italiana.

 

Os anos 50 e 60 foram muito frutíferos na Europa, pois surgiram e ganharam força as teorias psicopedagógicas inovadoras. Nomes como Piaget, Vygotsky e Dewey impulsionaram ideias e práticas que revolucionaram as discussões sobre educação. Juntaram-se a eles pedagogos italianos como Montessori e Ciari.

 

Malaguzzi, ao estudar todos esses autores, tinha a certeza de que o processo pedagógico deveria ter como centro o desenvolvimento intelectual, emocional, social e moral das crianças. O pedagogo lançou a ideia de se criar uma escola municipal que defendesse essas ideias em Reggio Emília, sendo até hoje seu incentivador primordial.

 

Por isso mesmo, deu início ao que hoje conhecemos como Pedagogia da Escuta ou Linha Pedagógica Malaguzziana. Em síntese: a escola que não possui disciplinas formais e que funciona como espaço em que todas as atividades pedagógicas se desenvolvem por meio de projetos.

 

O modelo pedagógico deu tão certo que acabou sendo municipalizado e, hoje, engloba 40% das escolas da cidade italiana. A rede Reggio Children é composta de uma dezena de creches e mais de vinte pré-escolas.

 

Leitor, chegamos a uma conclusão: o projeto “vingou” e se espalhou pelo mundo.

 

A proposta não é mais defendida só na Itália.  A atenção de todos que estudam a educação infantil está voltada para a cidade italiana que virou referência. É um modelo de educação que incentiva educadores a considerarem o que são as crianças no presente, e não o que podem se tornar no futuro.

 

Mas, o que torna essas escolas tão diferenciadas? Talvez, os professores pesquisadores. Ou o ambiente como um terceiro educador. Talvez ainda a construção dos relacionamentos, que é o foco do desenvolvimento do currículo. O “ateliê” criado como forma de laboratório de artes dentro da escola. De fato, todas essas “particularidades” formam a proposta inovadora.

 

Gerenciar uma sala de aula pode se tornar uma tarefa difícil, quando os educadores não estão preparados para tal. Imagine, leitor amigo, gerenciar uma sala de aula de Educação Infantil? Crianças exigem respostas rápidas, metodologias ativas, paciência, afeto e competência pedagógica, e como não se perder entre uma coisa e outra?

 

 

Princípios da linha Malaguzziana 

 

A arte é a ferramenta mais importante dessa abordagem. O ensinamento que dá base para esta ideia parte de alguns princípios desenvolvidos pelo educador, alguns dos quais são:

 

– Pedagogia da Escuta é a ideia que dá sustentabilidade a todo o projeto desenvolvido pelo autor;

– Inexistência de disciplinas formais;

– Atividades desenvolvidas por intermédio de projetos;

– As ideias dos projetos não são previamente escolhidas, elas nascem na interação com os alunos (vem do interesse desses aprendizes);

– Os projetos são desenvolvidos por meio de diferentes tipos de linguagem, ou seja, múltiplas linguagens (sem que predomine o estímulo de uma delas);

– Dança, pintura, interpretação, fotografia e muitas outras linguagens fazem parte do cotidiano das crianças e fazem parte dos projetos por elas desenvolvidos;

– Os estudantes são estimulados a desenvolver sua capacidade criadora (sendo esta abordagem considerada como a melhor do mundo pela Revista norte-americana Newsweek e serve de inspiração para a Educação infantil de diferentes países, inclusive o Brasil);

– A construção dos saberes se dá nessa interlocução: professor/facilitador de situações de aprendizagem e aluno, linguagens diferenciadas sendo desenvolvidas por meio de projetos, o mundo do conhecimento não está mais dividido em disciplinas e áreas (talvez aí a melhor ação de interdisciplinaridade);

– O saber é conquistado e desenvolvido por intermédio da parceria criança/professor, criança/criança; criança/meio;

– O espaço da escola é também considerado um elemento mobilizador da criatividade e ação criadora das crianças;

– O conceito do “eu” e do “nós” é trabalhado como forma de desenvolver consciência nas crianças e estimular seu amadurecimento emocional, bem como promover situações de aprendizado das relações interpessoais;

– A aprendizagem real vem da alegria criativa e libertadora do espaço, da forma como se ensina e aprende;

– Arte e estética caminham de mãos juntas: representação e expressão (desenhos, movimentos, jogos, construção de materiais, dentre outros).

– A criança é respeitada, bem como suas produções e inquietações. Ela é vista como um pequeno pesquisador, um descobridor de sentidos;

_ “Cívico” e “cível” são palavras que fazem parte da rotina das escolas malaguzzianas, isto porque o seu idealizador, e aqueles que abraçaram esta causa, entendem que as crianças têm direito à civilidade, à civilização e à vida cívica. Justificam com o fato de a criança estar vinculada e promover mudanças na sua própria cultura, costumes e valores;

– As crianças são protagonistas do próprio aprendizado, da vida e por serem estimuladas ao desenvolvimento de habilidades diferentes produzem mudança;

– Aprendizagem cooperativa e trabalho conjunto também são princípios bastante explorados.

– A documentação pedagógica apresentada como elemento necessário à melhoria do trabalho (é prática das escolas malaguzzianas: registrar acontecimentos, anotar observações, fotografar situações do cotidiano, selecionar produções das crianças e com elas construir memória sobre as experiência).

De forma resumida, esses são os princípios que balizam a linha pedagógica malaguzziana. Linha esta desenvolvida e defendida em um conjunto de centros educacionais italianos para crianças pequenas, chamados de “nidi e scuole dell’infanzia”.

São escolas públicas geridas pelo poder municipal que, como já destacamos, são referência em educação no mundo todo. Daí a importância de estudar essa nova possibilidade de educação infantil.

 

 

Influências

 

Co-construcionista, interacionista, ecológica e genética são as concepções de infância utilizadas pela linha pedagógica reggiana. Entenda-se por isso o fato de perceber a criança como um ser social. Um indivíduo que nasce com determinadas características que vão sendo transformadas à medida que interage com outras crianças, é impactado e impacta.

 

O ambiente escolar, nessa perspectiva, é o que Malaguzzi chama de terceiro professor. Tamanho destaque deve-se ao fato que toda a estrutura e organização deste espaço devem ser pensadas de forma a estimularem as potencialidades das crianças.

 

A ideia de que cada criança tem infinitas formas de manifestação própria faz com que tenha cem linguagens que lhe permitem se comunicar. Ela constrói seu conhecimento, reformulando, atualizando, compartilhando e aprendendo com o outro. Assim, de forma co-construcionista.

 

Daí Malaguzzi usar o “cem”  como uma simbologia. Nesse sentido, Malaguzzi também utilizava o conceito de interdisciplinaridade e teve esta como influência importante na concepção da escola reggiana. Ele percebia como a ciência se vincula à arte e como a arte, por sua vez, se vincula à matemática. E, assim por diante, uma grande teia.

 

As escolas assumem um local de produção de cultura, não só de cultura da infância, mas de cultura produzida pela infância. As cem linguagens não são apenas uma metáfora para dar crédito às crianças e aos adultos pelos mil potenciais criativos e comunicativos. Elas representam uma estratégia para a construção de conceitos e para a consolidação do entendimento. Portanto, interacionista.

 

A criatividade e a poesia existem em todas as linguagens, inclusive naquelas que definimos como científicas, assim como existe também um forte elemento estético (a beleza) que age como vínculo nos conceitos e entre eles. A beleza orienta e atrai. É tarefa do ensino (auxiliado pela documentação) sustentar o encontro das linguagens que se enriquecem pela troca com outras linguagens e descobrir seus limites, silêncios e outras omissões.

 

É a beleza, “a atração de fazer parte” e é a estética do conhecimento. É uma ecologia das linguagens. Uma ecologia em que as linguagens tecnológicas podem ser suportes fundamentais para a criatividade, não só acrescentar, mas multiplicar ideias.

 

Malagazzi faz parte de uma lista de pensadores considerados os mais importantes do século XX e XXI.  Seu pensamento foi fundamentado empiricamente nos anos de pesquisa que realizou em Reggio Emilia, em teorias de Jean Piaget, John Dewey e Lev Vygotsky, e também em conceitos da psicologia social e neurociência.

 

No dia a dia, a pedagogia malaguzziana segue alguns eixos principais, como a documentação pedagógica, a valorização do processo de pesquisa protagonizado pela criança, a arte e a criatividade.

 

Considerações Finais

 

 

(Re) conhecer as principais características da Linha Pedagógica Reggiana/Malaguzziana ou “ Pedagogia da Escuta”, ou ainda “ Pedagogia dos Sentidos” e “ Pedagogia do Projeto” é  uma forma de estudar mudanças no cenário da Educação Infantil mundial.

 

Isto porque, o italiano Loris Malaguzzi, visualiza o professor como um facilitador de aprendizagem, as crianças como construtoras do seu próprio saber e a escola como um espaço de construção e reconstrução do ser humano.

 

Entretanto, o autor defende que a criança não é um vir a ser, mas que já é um indivíduo. Também alega que o professor muda e abre sua consciência no contato com essa criança. E essa é a ideia fundamental para conceber uma escola que se pretenda malaguzziana: a infância é um período inaugural e não uma preparação para a criança se tornar um adulto.

 

Mais que isso, leitor, se uma escola quer ser reconhecida como tendo a melhor sala de aula do mundo é preciso que sua equipe diretiva e professores (re)pense suas práticas e o foco do seu ensino. Como ressaltado anteriormente: o aluno protagonista, o projeto como organizador de situações de aprendizagem e o ambiente como terceiro professor.

 

O fato é que essas ideias já estão sendo desenvolvidas também em escolas brasileiras, seja na sua totalidade, seja em ações que aos poucos vão introduzindo toda a expertise de sucesso daquela proposta italiana. E, assim, cada vez mais, nos parece um assunto a ser estudado, uma curiosidade a ser desvendada: qual  e como seria a melhor sala de aula de educação infantil do mundo?

 

Se quisermos a melhor sala de aula de educação infantil do mundo, Malaguzzi afirma que precisamos vislumbrar: “a criança é um ser pleno em sua humanidade inicial”. Temos, então, um novo olhar para a infância e para a criança.

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