Juventude periférica: do extermínio ao protagonismo

por: Lília Melo

A principal finalidade desse projeto é proporcionar o reconhecimento e a valorização da identidade sociocultural africana, indígena e ribeirinha da juventude periférica do bairro da Terra Firme, um dos bairros mais populosos da região metropolitana de Belém (PA).

 

Considero que, nos últimos anos, uma parcela da imprensa paraense construiu uma imagem estigmatizada do bairro, tratando-o como violento, caracterizando sua população de marginalizada e abandonada por políticas públicas. A comunidade de Terra Firme sofre com a onda de extermínio de seus jovens e, embora apresente uma ativa e intensa produção cultural de grupos/coletivos de arte, muito dessa produção não chegava até as escolas.

 

Pensando nisso, fizemos um levantamento de todos coletivos culturais do bairro, mapeando suas ações e pontos de encontros, com a finalidade de construir uma rede de comunicação entre os fazedores de cultura e alunos da escola Brigadeiro Fontenelle.

 

Eventos de formação e informação sobre memória, história e cultura do bairro, bem como seminários, rodas de bate-papo e produção de material de divulgação on-line, foram atividades desenvolvidas ao longo de todo o projeto. A rua que sempre foi um espaço significativo para a comunidade periférica, foi ocupada com arte, cultura e lazer, deixando de ser mero espaço de deslocamento para transformar-se em forte ponto de socialização das produções desses jovens protagonistas de suas próprias narrativas.

 

Porém, uma terrível chacina atingiu toda sociedade paraense, principalmente as/os jovens do bairro, e tivemos que deixar de lado as ações do projeto para enterrar corpos de alunas/os e seus familiares. As ruas voltaram a ficar desertas após o toque de recolher (ameaças de invasão e extermínio que viralizavam nas redes sociais), o pânico se instaurou em toda a escola e tudo pareceu chegar ao fim.

 

Foi em março de 2018 que realizamos uma campanha que possibilitou levar mais de 400 jovens ao cinema para assistirem ao filme Pantera Negra, que exibe uma mensagem de representatividade africana.  Com essa ação, presenciamos uma espécie de ressurgimento do vigor dos jovens para debates, conversas e ocupações de ruas.

 

Tanto a nossa campanha de promoção cultural quanto esta simples ida ao cinema despertou na mídia o lado positivo e produtivo do bairro. Realizamos muitas entrevistas e participações em programas locais, apresentando como se davam as ações do projeto. Até um programa da grande mídia (Esporte Espetacular, da Rede Globo) entrou em contato conosco para uma entrevista. Isso chamou a atenção de empresas privadas que também desenvolviam projetos sociais e nossa escola passou a ser visitada por várias instituições, dentre elas, universidades federais e estaduais.

 

Todos queriam ouvir o depoimento das experiências vividas na ida ao cinema e como essas/es jovens relacionaram o enredo do filme Pantera Negra às suas realidades.

 

Toda essa repercussão levantou a autoestima dos jovens. Foi aí que decidimos inaugurar um cineclube que servisse como espaço para a produção de documentários que contassem a história do bairro a partir das próprias narrativas dessas/es jovens. Iniciamos oficinas de audiovisual, tanto para professoras/es quanto para alunas/os, e assim poderíamos projetar suas produções em um telão ao céu aberto. Seria uma forma criativa e eficaz de contarmos nossa história para nós mesmos e para o mundo, já que contamos com uma plataforma virtual.

 

Assim, desconstruirmos a imagem de bairro violento e reafirmamos que, embora nossa juventude negra, indígena, ribeirinha e periférica sofra com os descasos de governos e com a disputa territorial do espaço onde vivem, somos criativas/os e inteligentes o suficiente para resistir à violência com a cultura, a arte e o lazer.

 

Planejamento

 

Andando na contramão dos ataques de extermínio, a juventude do bairro fortalece uma cultura de resistência e enfrentamento, atuando produtivamente onde há ausência de políticas públicas.  E isso só não era possível anteriormente devido à pouca interação dos coletivos culturais com as/os alunas/os e ausência de comunicação desses grupos entre si, o que relegava ao desconhecido todo o potencial cultural do bairro. E a cultura contribui para o senso de pertencimento da comunidade, que não valorizaria o poder transformador da coletividade desconhecendo sua própria identidade sociocultural.

 

Projetos culturais famosos por atuarem em comunidades periféricas, como o “Proceder” (Mano Teko/Rio de Janeiro – RJ), “Blacktude” (Nelson Maca/Salvador – BA) e “Cooperifa” (Sérgio Vaz/São Paulo – SP) foram determinantes para o envolvimento e sensibilização de jovens, que reconheciam nas letras de músicas e poesias desses projetos alguns aspectos de suas realidades. Soma-se a isso a realização de pesquisas in locum e de seminário onde essas/es jovens apresentavam os panoramas de produções culturais existentes em seu bairro.

 

Considerando que o projeto desenvolveria atividades com alunas/os do ensino médio, em especial com as turmas de 3º ano, incluí nele algumas metas de aprendizagem que deveriam apresentar consonâncias com as exigências do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para a disciplina de Língua Portuguesa, já que recentes resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) e do Enem no Estado do Pará não foram satisfatórios. Assim, as ações do projeto fortaleceriam as práticas de ensino da língua através de textos nos diferentes processos e dimensões: oralidade, leitura, análise linguística e produção escrita.

 

Não é de hoje que o conjunto leitura e escrita está presente nas discussões de educadoras/es da minha cidade. O problema não é reconhecer a importância que tem cada uma dentro do processo aquisitivo da linguagem, mas sim reconhecer qual concepção de linguagem se trabalha em sala de aula para poder identificar e valorizar os avanços que almejam frente ao caminho traçado.

 

Partindo desse princípio da necessidade de mudança nas atividades didáticas em sala de aula é que surge esse projeto de promover debates com jovens sobre suas realidades, com a preocupação de incentivar sua escrita a partir de leituras, reflexões e debates de questões polêmicas que envolvem sua identidade sociocultural, considerando que “compreender e produzir textos são atividades humanas que implicam dimensões sociais, culturais e psicológicas”, além de mobilizar todos os tipos de capacidades de linguagem (habilidades e competências).

 

O projeto pretende, assim, ampliar o nível de letramento dessa juventude periférica, estimulando suas habilidades e competências discursivas com a finalidade de potencializar o aspecto social do uso da leitura e da escrita nas atividades práticas cotidianas do fazer coletivo.

 

Dessa forma, reconhecer-se enquanto uma comunidade afro indígena ribeirinha transformaria o olhar da juventude da Terra Firme, transmutando-a do lugar de objeto na construção de narrativas alheias para lugar de sujeito que escreve e protagoniza a sua própria história.

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