Dez lições sobre a inclusão da pessoa com deficiência

por: Sara Lopez

1- A inclusão é “caminho que se faz caminhando”
A inclusão é um caminho a ser percorrido. O destino almejado é o de uma escola de todos e para todos, e vislumbrar este destino é tomar fôlego para a caminhada, mesmo diante da constatação de que ainda há muito que se trilhar, ou seja, de que ainda não chegamos lá. A inclusão se faz na caminhada, no percurso. A inclusão é trajeto, é projeto. Está em construção, e sua inconclusão não deve ser empecilho para que sigamos em frente. Sua incompletude deve ser, ao contrário, o impulso para uma busca constante, a busca por equidade nas escolas.

 

“A Educação é exatamente esse movimento de busca, essa procura permanente” (FREIRE, 2011)

 

2- Incluir é transpor barreiras
O caminho da inclusão é um caminho de obstáculos. Nenhum deles, porém, é intransponível. Quem se dispõe a trilhar esta estrada precisa estar disposto a enfrentar entraves que vão desde espaços físicos excludentes a atitudes segregadoras. Romper barreiras arquitetônicas pode ser, inclusive, menos desafiador do que superar barreiras humanas. Fazer adaptações como rampas, elevadores e corrimões pode ser menos trabalhoso do que mudar o olhar das pessoas a respeito da inclusão.

 

A inclusão (especialmente a escolar) ainda gera resistência. Uma resistência muitas vezes velada, sutil, implícita em atitudes preconceituosas, expressa em falas e olhares que transmitem intolerância. A inclusão depende de sensibilização, depende de uma nova concepção de escola e de sociedade. A transposição destas barreiras, sejam elas as que impedem a locomoção (arquitetônicas), as que impedem a comunicação (comunicacionais) ou as que criam obstáculos ao acolhimento (atitudinais), requer mobilização e perseverança!

 

“Essa perspectiva surge, justamente, da concepção de uma escola capaz de responder às necessidades de todos e que (…) previna situações limitadoras ou barreiras que dificultem o acesso facilitado de todas as pessoas a todas as dimensões da vida humana” (OLIVEIRA, 2017)

 

3- A inclusão é via de mão dupla
A inclusão da pessoa com deficiência na escola não beneficia somente o aluno com deficiência. Pensar que ao incluir estamos dando uma oportunidade às crianças com necessidades educacionais especiais, sem considerar que esta oportunidade está sendo dada também a toda a comunidade escolar que a acolhe é, no mínimo, prepotente. A oportunidade é de todos! Uma oportunidade desafiadora de crescimento e de convivência com as diferenças. Todos se beneficiam com a inclusão:

 

“A inclusão acontece nas entrelinhas tecendo uma educação de qualidade para a turma toda e não somente para alguns. Ela traz benefícios tanto para os alunos com deficiência como para aqueles sem deficiências. Pois colabora para a constituição de pessoas mais humanizadas, mais solidárias, mais colaborativas (…) “Ela amplifica o potencial de aprendizagem de cada aprendiz” (ORRÚ, 2017).

 

4- A inclusão é necessária porque existe a exclusão
Não precisaríamos lutar por inclusão se não houvesse exclusão. A exclusão se faz presente sempre que não há lugar para as diferenças, sempre que algo é formulado, construído, idealizado e reproduzido sem que se considere a diversidade, sem que as deficiências sejam contempladas:

 

“Para entender o que é e como incluir, temos que nos desfazer do que nos fez excluir, sem ou com a intenção de fazê-lo” (Mantoan, 2016)

 

5- A inclusão exige militância
A inclusão escolar demanda uma postura de militância por parte de professores, familiares, por parte da comunidade escolar e da sociedade como um todo. Esse ativismo é necessário porque há muito o que se conquistar, há muito ainda a ser feito para que possamos ter escolas realmente inclusivas. Quanto mais a gente se unir nessa luta, mais perto estaremos de delinear esse novo desenho de escola.

 

6- A inclusão depende de muitos atores
A inclusão da pessoa com deficiência demanda ações coletivas, depende do envolvimento, da participação e da conscientização de todos. A inclusão escolar requer:

 

“(…) uma aprendizagem colaborativa dos alunos com e sem deficiência com seus professores (professores regulares e professores especialistas da educação especial), além de outros atores sociais como os diretores, coordenadores, gestores, cuidadores e familiares ou responsáveis” (SÁNCHEZ, 2003; FIORINI; MANZINI, 2014).

 

7- É a escola que precisa se adequar, não a criança
A inclusão escolar tem como pressuposto que todos são capazes de aprender, que todos podem e devem ter acesso à Educação. A materialização deste discurso se dá através da construção de um modelo de escola flexível, aberta a mudanças, afeita aos desafios… Uma escola que não meça esforços para ser lugar de todos. Matricular uma criança com deficiência em escola regular por si só não garante inclusão. Inclusão na escola demanda um remodelamento constante das práticas escolares, dos espaços, das metodologias, requer uma escola que se dinamize e que se adapte às crianças com deficiência, não o contrário.

 

“A inclusão é uma inovação que implica um esforço de modernizar e reestruturar a natureza atual da maioria de nossas escolas. Isso acontece à medida que as instituições de ensino assumem que as dificuldades de alguns alunos não são apenas deles mas resultam, em grande parte, do modo como o ensino é ministrado e de como a aprendizagem é concebida e avaliada.” (MANTOAN)

 

8- A inclusão tem pressa
As crianças com deficiência de hoje não podem esperar mais tempo até que a escola esteja preparada para recebê-las. A inclusão tem pressa e quem está fora do processo precisa ser contemplado o quanto antes. Nunca estaremos completamente preparados para todas as situações que a Inclusão escolar tem a nos apresentar, mas o mais importante é que estejamos nos preparando, que estejamos em busca de conhecimento, de adaptações, de novas formas de fazer e de pensar a Educação e os espaços.

 

O despreparo sempre será uma realidade, mas não pode mais ser uma desculpa para a exclusão. Se não estamos preparados enquanto pais, enquanto educadores, enquanto sociedade… é importante que comecemos a buscar este preparo como afirmação de uma conduta de humanização das nossas práticas.

 

“Se não estamos preparados, precisamos urgentemente nos preparar. E uma verdadeira preparação começa com a possibilidade e pelo desafio de acolher as diferenças na sala de aula e pela busca de novas respostas educacionais. Nesse processo, a responsabilidade é de todos – pais, diretores, supervisores, orientadores educacionais, professores, alunos – e, principalmente, das autoridades responsáveis pela definição e implementação das políticas educacionais” (SARTORETTO, 2013)

 

9- A inclusão é para todos
Todos precisamos ser incluídos. Precisamos, todos, encontrar espaços de ser e de conviver no mundo. Quando abraçamos as diferenças estamos nós mesmos aceitando o convite de pertencer a um novo universo. “Cada indivíduo é um universo”, ouvi dia desses de um professor. Quanto desse universo do outro você tem se permitido conhecer? TODOS somos CAPAZES de aprender e TODOS temos algo a ensinar. O que varia é o quê e como se ensina e aprende

 

“Os contrários opõem-se e se impregnam mutuamente. Assim cada um deles é condição para que exista o outro e, no seu movimento, cada um se converte no outro” (CURY, 1985)

 

10- A inclusão é “sonho possível”

A inclusão escolar é sonho porque ainda não se concretizou plenamente. Mas é sonho possível! Possível, necessário, vital e indispensável para a construção de uma escola plural e humanizada. Nós professores podemos nos permitir sonhar este sonho, o de uma escola que acolha as diferenças irrestritamente. E diante da alegação de que o discurso inclusivo é utópico, eu evoco Paulo Freire. “Ai de nós professores se deixarmos de sonhar sonhos possíveis!”

 

“O meu discurso em favor do sonho, da utopia, da liberdade, da democracia é o discurso de quem se recusa a acomodações, de quem não deixa morrer em si o gosto de ser gente.” (FREIRE, 2011)

 

 

Referências Bibliográficas:

PAPIM, Angelo Antonio Puzipe; ARAUJO, Mariane Andreuzzi de; PAIXÃO, Kátia de Graça Moura; SILVA, Glacielma de Fátima da (Orgs.). Inclusão Escolar: perspectivas e práticas pedagógicas contemporâneas. Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2017.
FREIRE, Paulo; HORTON, Myles. O caminho se faz caminhando. Petrópolis: Vozes, 2009.
· SARTORETTO, Maria Lúcia. Inclusão: da concepção à ação. In: MANTOAN, Maria Tereza Eglér (Org.). O Desafio das Diferenças nas Escolas. Petrópolis: Vozes, 2013.
MANTOAN, Maria Tereza Égler. Inclusão escolar: o que é? Por que? Como fazer? São Paulo: Moderna, 2003.
ORRÚ, Sílvia Ester. O Re-inventar da inclusão: Os desafios da diferença no processo de ensinar e aprender. Petrópolis, Rj: Vozes, 2017
FREIRE, Paulo. Pedagogia dos Sonhos Possíveis. 1a edição. São Paulo: Paz e Terra, 2014

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