A inclusão como via de mão dupla

por: Sara Lopez

Um dos principais eixos norteadores do currículo escolar, tanto na Educação Infantil, quanto no Ensino Fundamental, é o que diz respeito ao tema Identidade. Esta temática permite trazer para a sala de aula debates indispensáveis na formação da criança enquanto cidadã. Permite atrelar ao conteúdo escolar um conteúdo formativo de importância irrefutável para a construção de um olhar mais apurado de cada aluno sobre si mesmo e sobre os outros.

 

O conceito de identidade está assim, intimamente ligado à ideia de diversidade. É através do contato com as diferenças que o indivíduo percebe suas próprias peculiaridades e aprende a respeitar as singularidades do outro. É através dessa interação com o que é diverso que o indivíduo constrói sua identidade, pois o contato com o novo ou com o que lhe é oposto gera aprendizado, gera novas apropriações e ressignificações do que lhe é próprio, em um diálogo contínuo com o que é próprio do outro.

 

As diretrizes referentes à identidade e à diversidade abrangem uma série de aspectos que podem e devem ser explorados em sala de aula. O tema “inclusão” também se insere no contexto das diversidades, das diferenças, da construção da individualidade, da formação da identidade. Mas quando se fala de “diferenças” em sala de aula, pouco se fala sobre “deficiências”. As abordagens mais significativas quase sempre se concentram nas diferenças étnicas, culturais, nas diferenças de cor, de gênero, nos diferentes tipos de formação familiar, de moradias, de profissões, nas diferentes habilidades, e todos estes aspectos são igualmente fundamentais para o desenvolvimento da autonomia e da identidade da criança.

 

A inclusão é vantajosa para todos!

 

Quando pensamos na inclusão da criança com deficiência como aspecto que se insere nas diretrizes sobre identidade e autonomia, transformamos a inclusão em tema indispensável na rotina de sala de aula e, dessa maneira, garantimos benefícios não somente para a criança com deficiência, mas para todos os que com ela interagem. Crianças sem deficiências mas que têm a oportunidade de conviver respeitosamente com crianças com deficiência certamente terão, no futuro, maior empatia e naturalidade para lidar com as diferenças.

 

A inclusão é uma oportunidade não só para o aluno com deficiência, mas é também para o que não tem deficiência. Essa convivência propicia um aprendizado significativo para todos:

 

“A criança que conviver com a diversidade nas instituições educativas poderá aprender muito com ela. Pelo lado das crianças que apresentam necessidades especiais, o convívio com as outras crianças se torna benéfico na medida em que representa uma inserção de fato no universo social e favorece o desenvolvimento e a aprendizagem, permitindo a formação de vínculos estimuladores, o confronto com a diferença e o trabalho com a própria dificuldade.” (RCNEI, 1998, p. 35)

 

Para que este diálogo aconteça é preciso rever o papel do professor em sala de aula. É preciso garantir que o aluno seja sujeito do aprender e que o professor não somente seja um mediador na construção dos saberes, mas que seja também mediador das relações que se pretende construir em sala de aula.

 

“Professores e alunos são híbridos, e nesse contexto, todos são aprendizes e mestres. Sofrem transformações, mutações, continuamente. Aprendem e compartilham saberes nos espaços formais e informais.” (Ester, 2017, p 66).

 

Se TODOS são mestres, a criança com deficiência também tem potencial para ensinar. Através de um olhar sensível, é possível promover importantes aprendizados por meio da inclusão e garantir que lições significativas sejam aprendidas a partir da convivência com a deficiência. A criança com deficiência como qualquer outra, é capaz de ensinar despretensiosamente, pelo simples fato de existir.

 

“A inclusão acontece nas entrelinhas tecendo uma educação de qualidade para a turma toda e não somente para alguns. Ela traz benefícios tanto para os alunos com deficiência como para aqueles sem deficiências. Pois colabora para a constituição de pessoas mais humanizadas, mais solidárias, mais colaborativas (…) “Ela amplifica o potencial de aprendizagem de cada aprendiz” (Ester, 2017, p. 67).

 

É o debate se materializando por meio das relações em sala de aula. A inclusão, quando acontece de fato, representa não só uma conquista das minorias mas também uma conquista dos que supostamente não precisam de representatividade, dos “normais”. Ela mostra que, na verdade, todos somos diferentes e que precisamos, todos, em certa medida, sermos também representados, sermos vistos e ouvidos, sermos aceitos e incluídos.

 

REFERÊNCIAS:

• MANTOAN, Maria Tereza Eglér (Org.). O Desafio das Diferenças nas Escolas. Petrópolis: Vozes, 2013. Disponível em: http://cdnbi.tvescola.org.br/resources/VMSResources/contents/document/publicationsSeries/175610Desafio.pdf
• ORRÚ, Sílvia Ester. O Re-inventar da inclusão: Os desafios da diferença no processo de ensinar e aprender. Petrópolis, Rj: Vozes, 2017
• MACEDO, Lino de. Ensaios pedagógicos: Como construir uma escola para todos? ArtMed. Porto Alegre. ISBN, 2005
• Referencial curricular nacional para a educação infantil / Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental. — Brasília: MEC/SEF, 1998.

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