Identidade e diversidade através da língua portuguesa

por: Ana Valeria da Carvalheira

O português é uma língua românica, decorrente do latim, sendo a sétima mais falada no mundo, além de ser a língua oficial em nove países (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste). São mais de 260 milhões de pessoas! Só no Brasil são mais de 200 milhões de falantes que buscam as palavras e nelas inserem a própria identidade a fim de interagirem. Calcula-se que o português do Brasil possua algo em torno de meio milhão de palavras e que a quantidade de sons não ultrapasse a trinta. Parece pouco? Verdade que não só de número vive uma língua: o estudo da língua não se esgota em sua estrutura.

O educador pode mediar e construir com os alunos, trazendo ao ambiente de aprendizagem discussões acerca do lugar da língua para o sujeito: quem ele é e de onde ele fala? O que ele representa e que outros lugares o conhecimento linguístico poderá levá-lo? Refiro-me a questões enunciativas e discursivas que transcende a lógica comum que, em muitos casos, é destituída de maiores reflexões. Fundamental compreender que “lugar” é esse que estamos tratando? Não desligar o entendimento da língua de questões ideológicas, por exemplo – enfatizo a ideia de trazer a REFLEXÃO, trazer mais questões do que formular respostas.

É um caminho para o auto reconhecimento e respeito a identidade do outro. Afinal, variação linguística, por exemplo, não é só o estudo de gírias ou das diferenças entre o falar rural e urbano como restringem alguns livros didáticos. Oferecer acesso ao conhecimento histórico e filosófico da nossa língua não é igual a demarcar fronteiras territoriais, mas é quebrar as fronteiras do preconceito social, muitas vezes revestidos de preconceito linguístico – sabemos disso.

Para termos uma noção do universo linguístico devemos considerar seu uso, seu funcionamento social e cultural. Afinal, a língua representa nossa realidade e nossa subjetividade. Dizemos o que somos, conseguimos pensar, descrever, opinar… Comunicar – através de gestos ou proferindo as palavras – é um “colocar-se” no mundo. Possuímos marcas linguísticas individuais e as que marcam nossa comunidade, nossa escolaridade, nosso tempo.

As línguas – entendidas como um código verbal característico – se multiplicam em inúmeras variedades geográficas, sociais e estilísticas. Nenhum sistema linguístico é uniforme e estanque – as necessidades das comunidades mudam com o mundo e a língua acompanha. As diferenças no Brasil, por exemplo, são enormes, a ponto de causar dificuldade de compreensão, principalmente no significado de expressões até entre estados vizinhos.

Mesmo numa única comunidade linguística ninguém fala e escreve igual. Além das gírias, entoações e variadas formas super criativas, há vários recursos e estratégias que a língua dispõe e podem ser personalizados de acordo com a finalidade da fala. A exemplo temos a ironia, a metáfora, as comparações… Que dentro de um determinado contexto o sentido pode ser alterado. É um grande repertório de palavras disponíveis que vão se diferenciando e ressignificando a partir de incontáveis situações.

Impossível capturar todas as maneiras possíveis de combinações, seja no nível semântico, sintático, pragmático, fonológico ou morfológico. Seria preciso prever o pensamento, os sentimentos e a intenção das pessoas. A língua dá forma a nossa realidade e significa o mundo para nós em situações de interação – impensáveis mesmo!

Ao abarcar as necessidades comunicativas nesse espaço, se tornando um sistema complexo, o encontro de variedades provoca mudanças na estrutura da língua – ao longo do tempo, após sanção social coletiva. As diferentes expressões se reconfiguram em novas regras. (Isso mesmo. Aquelas regras que precisamos aprender a ensinar cada vez mais como uma língua “viva”). Ou seja, a língua padrão não escapa da mudança, seu estudo deveria ser indissociável do sentido e dos objetivos da exposição do sujeito falante.

As dimensões sociocultural e gramatical da língua possuem seus respectivos enfoques e importâncias. Devemos sempre lembrar que o falar está ligado a identidade, ao sujeito que se constitui. E, muitas vezes, o hábito de criticar os falares alheios não considera a diversidade. Existe, sim, o que é convencionalmente adequado para determinadas situações de fala e escrita. Importante lembrar aos alunos em formação que ela é flexível e está para todos na proporção em que vão se apropriando dos recursos que ela oferece e do poder de representatividade que ela possui.

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