A família e a formação da cidadania digital de crianças e adolescentes

por: Márcio Motta

A tecnologia digital têm mudado constantemente a dinâmica das escolas, comunidades e famílias. De acordo com Ribble (2015): “No passado era comum, para uma parcela das famílias se reunirem ao redor da mesa de jantar e conversar sobre os eventos do dia. Pessoas liam jornais e assistiam, ou ouviam, as notícias transmitidas por jornalistas profissionais. Esses jornalistas coletavam as informações de fontes confiáveis e, então, compartilhavam a informação com as massas. Hoje, muitas dessas fontes confiáveis se foram. Agora, é responsabilidade do indivíduo determinar qual informação é correta”.

 

Nos últimos 30 anos – mais intensamente nos últimos 10 — pais e filhos experienciaram a mudança mais drástica da história, do ponto de vista da tecnologia da informação (WANG e XING, 2018) e, assim, ampliou-se a preocupação sobre o uso apropriado da tecnologia, encaminhando-se a um interesse presente de como nossos estudantes a utilizam, principalmente a tecnologia móvel. O problema é que ela foi absorvida sem o entendimento das implicações sociais de possuir e utilizar esses aparelhos (RIBBLE, 2015). As explorações dos jovens no mundo digital não são muito diferentes daquelas das gerações anteriores.

 

Algumas pessoas podem estar confusas com a questão digital e suas implicações no mundo real. Hoje esses dois mundos estão sobrepostos e é difícil especificar onde um termina e o outro começa (RIBBLE, 2015). Usuários vivem, trabalham e interagem não apenas no mundo físico, mas também no digital.

 

Educadores e pais devem preparar crianças e adolescentes para viver em um mundo sem fronteiras, auxiliando-los a aprender como trabalhar com os outros e mostrando que a tecnologia digital não é apenas um conjunto de dispositivos e brinquedos, mas, sim, ferramentas que permitem aos indivíduos se comunicarem e, finalmente, criarem uma nova sociedade, que agora é global, com cidadãos empáticos, socialmente responsáveis e que acreditam na justiça social, tanto on-line quanto fisicamente. Dessa forma, o intuito é desenvolver bons cidadãos que ajudarão a criar uma sociedade de usuários que ajudarão outros a aprenderem como usar a tecnologia apropriadamente.

 

Para Ribble (2015):

 

“A cidadania digital é definida como as normas para um comportamento apropriado e responsável durante o uso das tecnologias digitais, estruturadas em nove elementos (acesso, comércio, comunicação, segurança, etiqueta, alfabetização, mídias, direito digital, saúde e bem-estar) que seguem os princípios do respeito, educação e proteção: aprendendo a respeitar os outros e a si mesmo, aprender sobre novas tecnologias compartilhando o conhecimento com os outros e protegendo-se e aos outros do uso inseguro”.

 

O autor reforça que os usuários necessitam ter o entendimento da tecnologia digital e seu uso adequado. Em outras palavras, um indivíduo pode se tornar um cidadão digital responsável apenas aprendendo os elementos da cidadania digital. Como membros de uma sociedade digital, é dever de todos que dela participam fornecer aos demais a oportunidade de trabalhar, interagir e usar os recursos tecnológicos digitais sem interferência, destruição ou obstrução por ações de usuários inapropriados.

 

Baseadas nessas e demais definições, organizações como a Sociedade Internacional para a Tecnologia na Educação (International Society for Technology in Education — ISTE) criou seus próprios conjuntos de padrões, conhecidos como “Procedimentos Nacionais de Tecnologia Educacional” (National Education Technology Standards — NETS) para professores, estudantes e gestores (ISTE, 2018).

 

Esses procedimentos incluem uma seção de ética tecnológica que fornece um quadro geral que cada professor, estudante e gestor devem saber. Outra instituição, a Common Sense, fornece dados sobre o uso das tecnologias digitais e seus impactos em crianças e adolescentes estadunidenses para pais, educadores, escolas, instituições e políticos (COMMON SENSE, 2018).

 

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De forma mais ampla, iniciativas como a conduzida pela rede europeia EU Kids Online, Global Kids Online, Kids Online América Latina e TIC Kids Online Brasil, iniciativa conduzida desde 2012 pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (CETIC), que coleta e analisa dados relacionados à tecnologia e juventude brasileira, mapeia uso e possíveis riscos ou oportunidade on-line para crianças de 9 a 17 anos de idade (TIC KIDS ONLINE, 2017).

 

A pesquisa apresentou que 82% dos pesquisados acessaram a internet nos últimos três meses, 84% todos os dias, sendo 91% através de celular ou smartphone. Do total, 41% relatam que já presenciaram alguém ser discriminado, com maior incidência em relação à cor ou raça. Sobre exposição, 49% das crianças e adolescentes relatam possuir o perfil público nas mídias sociais.

 

Introduzir tecnologia digital para crianças desde a primeira infância fornece oportunidades, segundo Ribble (2015):

 

“De aumento da criatividade numa escala não conhecida no passado. Ela permite usuários produzir informação ao invés de apenas consumi-la. Com os benefícios que ela fornece, vem as armadilhas; perda de interação pessoal, bullying por outros através das ferramentas digitais, super compartilhamento de informações pessoais com desconhecidos”.

 

Diante dos desafios que se apresentam, a mediação dos atores de socialização deve buscar maximizar as oportunidades e minimizar os riscos e possíveis danos ao bem-estar das crianças e jovens, favorecendo oportunidades on-line ligadas à comunicação, educação e lazer (TIC KIDS ONLINE, 2017). Com o crescimento do uso da tecnologia na educação, existe uma necessidade de programas que ajudem os estudantes a focar no uso positivo da tecnologia digital e ter mais discernimento nas decisões sobre o quê postar, comentar ou discutir na internet.

 

 

Os educadores sabem que o objetivo maior da educação não é apenas leitura, ciência e matemática — o principal é ajudar estudantes a se preparem para o futuro (RIBBLE, 2015). Com as novidades e mudanças na tecnologia digital, usuários não podem garantir que todos conheçam o que é adequado, sendo responsabilidade, na concepção de Hollandsworth, Dowdy e Donovan (2011) de educadores, escola e pais ajudar a definir o uso adequado da tecnologia. Neste sentido, é imperativo compreender as novas realidades construídas a partir da adoção das tecnologias de informação e comunicação (TIC) pelas crianças e jovens e suas implicações nos comportamentos, nas formas de se relacionar socialmente e até mesmo na construção identitária (TIC KIDS ONLINE, 2017).

 

 

Os pais têm papel fundamental como guias e reguladores da participação das crianças e jovens nesta nova ecologia digital tecnológica, sendo um dos 5 fatores-chave evidenciados por Livingstone et al. (2015) no relatório EU Kids Online para a promoção efetiva da Cidadania Digital. Os ambientes familiares refletem os valores, moral e aspirações das famílias tão bem quanto as crenças sobre a importância e efeitos da tecnologia digital para o aprendizado e comunicação (HORST, 2010).

 

Segundo o relatório TIC Kids Online Brasil (2017), 68% dos pais estão conectados e uma parcela considerável de pais com filhos nessa faixa etária entrevistados (69%) confirmam que seus filhos usam a internet de forma segura e o principal meio que procuram orientações para ajudar os filhos é a TV, jornal, revista ou rádio (54%), seguido por websites (36% e posteriormente a escola (35%). Diante dos desafios que se apresentam, a mediação dos atores de socialização deve buscar maximizar as oportunidades e minimizar os riscos e possíveis danos ao bem-estar das crianças e adolescentes, favorecendo oportunidades on-line ligadas à comunicação, educação e lazer.

 

Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos com pais que possuem filhos entre 13 e 17 anos (ANDERSON, 2016) mostra que 61% já checou seu perfil nas mídias sociais; 48% já verificou ligações ou mensagens no celular do filho; 39% usou algum tipo de controle parental para monitorar (39%) ou restringir a atividade do filho no celular (16%); 16% usam ferramentas para monitorar a localização do filho. Além disso, 65% retiram o celular dos filhos como punição e 55% limita o tempo de uso dos celulares diariamente.

 

A pesquisa ainda mostra que pais com filhos entre 13–14 anos conversam mais com estes em comparação com pais com filhos entre 15 e 17 anos, sendo também mais vigilantes com relação a checagem de websites visitados (68% em comparação aos 56% dos pais com filhos mais velhos) e uso de controle parental para bloquear, filtrar ou monitorar as atividades dos filhos na internet (46% em comparação com 34%).

 

De forma geral, o principal meio de comunicação entre pais pesquisados e filhos é a mensagem (49%), seguida por ligação (41%). Wang e Xing (2018) recentemente realizaram pesquisa que buscou entender a influência do envolvimento parental na cidadania digital relacionada a três elementos (acesso, etiqueta e segurança), que outros autores, incluindo Ribble (2015), consideram se relacionar diretamente com a influência dos pais. As hipóteses do trabalho relacionavam o envolvimento de mediação ativa com comportamentos positivos ligados aos elementos.

 

Os resultados revelaram relação significativa entre o envolvimento parental ativo e os elementos etiqueta e segurança, mas não encontraram evidências sobre o acesso, provavelmente pelo motivo de que estar on-line se tornou a norma para vida de grande parte dos adolescentes envolvidos indiretamente na pesquisa.

 

Para os autores, o conhecimento parental e o envolvimento nas atividades dos jovens na internet influenciam no comportamento adequado e responsável em ambientes digitais, podendo adicionalmente auxiliar na construção da identidade digital, perspectiva, valores e conduta apropriada, ao mesmo tempo que apoia a extensão de conexões sociais.

 

Os resultados apontaram que a mediação parental ativa influencia positivamente adolescentes de 12 a 17 anos com relação à mediação restritiva e que pais com informação acurada apoiam jovens a desenvolver a cidadania digital, aumentando o acesso, melhorando a etiqueta e a segurança, tornando seus filhos bons cidadãos digitais.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

PEDIATRICS, American Academy Of. Family Media Plan. 2018. Disponível em: . Acesso em: 20 mar. 2018.

GOOGLE; SAFE, Ikeep. Google Digital Citizenship – Curriculum. 2017. Disponível em: . Acesso em: 29 nov. 2017.

SENSE, Common. Digital Citizenship – CURRICULUM TRAINING 6-8. 2018. Disponível em: . Acesso em: 12 fev. 2018.

GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2009. 175 p.

HOLLANDSWORTH, Randy; DOWDY, Lena; DONOVAN, Judy. Digital Citizenship in K-12: It Takes a Village. Techtrends, [s.l.], v. 55, n. 4, p.37-47, 27 maio 2011. Springer Nature. http://dx.doi.org/10.1007/s11528-011-0510-z.

HORST, Heather A.. Families. In: ITO, Mizuko. Hanging out, messing around, and geeking out: kids living and learning. Massachusetts: Massachusetts Institute Of Technology, 2010. Cap. 4. p. 149-194. (The John D. and Catherine T. MacArthur Foundation Series in Digital Media and Learning). Disponível em: . Acesso em: 20 maio 2018.

FINGAL, Diana. Citizenship in digital age. 2017. Elaborado por International Society for Technology in Education – ISTE. Disponível em: . Acesso em: 15 maio 2018.

SÃO PAULO. Diversos autores. Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto Br (Ed.). TIC Kids Online Brasil [livro eletrônico]: pesquisa sobre o uso da internet por crianças e adolescentes no Brasil 2016. São Paulo: Comitê Gestor da Internet no Brasil, 2017. 332 p. Disponível em: . Acesso em: 10 maio 2018.

ANDERSON, Monica. Parents, teens and digital monitoring. Washington: Pew Research Center, 2016. Disponível em: . Acesso em: 10 maio 2018.

WANG, Xianhui; XING, Wanli. Exploring the Influence of Parental Involvement and Socioeconomic Status on Teen Digital Citizenship: A Path Modelling Approach. Educational Technology & Society, v. 1, n. 21, p.186-199, jan. 2018.

LIVINGSTONE, S.;MASCHERONI, G.; STAKSRUD, E.Developing a framework for researching children’s online risk and opportunities in Europe. 2015. Londres, EU Kids Online. Disponível em:

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