Explorando a garra dos alunos

por: Entretanto

Incutir nos alunos a importância da garra, de maneira eficaz, se resume na diferença entre entrega-los a ideia de maneira pronta ou equipá-los com ferramentas para que adquirem e cultivem a perseverança. Recentemente, experimentei o contraste entre a teoria e a prática, quando falhei com meu próprio afilhado, em um momento crítico.

 

Como? Bem, ao invés de ajudá-lo a explorar sua garra de maneira substancial e produtiva, eu caí na armadilha (inútil) do “aconselhamento simpático”. Ele é um calouro em uma Universidade, está vivendo fora de casa pela primeira vez e tem pela frente quatro rigorosos e desafiadores anos – ou seja, tem muito com o que se preocupar e está sem tempo para muitas distrações.

 

Porém, em outubro de 2017, quando os devastadores incêndios que atingiram o Estado da Califórnia, nos Estados Unidos, também cercaram sua cidade natal, Napa, estar longe de casa teve um significado ainda mais intenso para ele.

 

Mesmo que sua família e animais de estimação estivessem seguros e seus bens mais preciosos protegidos, ter a motivação e a disciplina para trabalhar arduamente nas tarefas acadêmicas parecia desanimador e sem importância. Ele simplesmente parou de fazer isso, e mesmo quando ele tentava se dedicar, não conseguia se concentrar. Isso era compreensível, dadas às circunstâncias, mas não era o ideal.

 

Então, o que fiz? Falei com ele, disse alguns clichês e chavões apaziguadores “do arco da velha”, como: “Graças a Deus, todos estão seguros”; “Não hesite em me ligar a qualquer hora”; e “Tudo poderia ser bem pior.” Fiz bem? Sim. Fui sincero? Definitivamente. Mas eu poderia ter feito muito mais por ele. Perdi a minha oportunidade.

 

O que eu não fiz foi dizer a dura verdade. Não aproveitei esta oportunidade crítica para ajudá-lo a perceber que “as coisas acontecem”, e que são adversidades e momentos como esses, em que parece que a vida está te agarrando e te afastando de seus objetivos educacionais, por exemplo, são “as provas de fogo” que determinarão sua garra e sua vontade de crescer significativamente, aplicando-as às coisas que realmente importam.

 

Todo aluno universitário, na sua busca de um diploma, experimenta um pouco da combinação da rigorosidade acadêmica, dos rompimentos afetivos, dos problemas familiares, das preocupações com a saúde, dos dramas do colega de quarto ou de sala, das dores de cabeça burocráticas, das injustiças pessoais, dos conflitos, das dificuldades emocionais, do estresse financeiro, das pressões externas e da angústia existencial.

 

Meu afilhado não precisava do meu conselho acolhedor, mas vago, tanto quanto ele precisava do essencial, das ferramentas práticas para verdadeiramente obter, para ir mais adiante e prosseguir sem hesitação em sua aprendizagem e seus objetivos. Como eu poderia ter ajudado? Eu deveria ter chamado sua atenção para os componentes do que eu chamo a “escala da garra”.

 

Eles são: Crescimento, Resiliência, Instinto e Tenacidade. É fundamental que os indivíduos se envolvam totalmente com eles para verdadeiramente progredirem. Considere essas quatro facetas da definição de garra e as perguntas que eu, um professor, um orientador ou qualquer outra pessoa possa fazer sobre cada uma delas, auxiliando, desta forma, seus alunos a obterem seu próprio aprendizado e alcançarem seus objetivos de vida nos bons e nos maus momentos.

 

Leia mais: Usando métodos da Educação Afetiva para melhorar a motivação e performance dos alunos.

 

Crescimento

 

Propensão de buscar novas ideias e perspectivas, acelerando e melhorando o progresso de um indivíduo em relação às metas difíceis e de longo prazo.

 

O crescimento diz respeito a correr atrás dos objetivos e a descobrir o que se precisa saber para alcançá-los da melhor e mais rápida maneira. O crescimento tira o aluno da posição de vítima e o coloca em uma posição “piloto”, no comando da sua jornada. Desta forma, a aprendizagem e a dinâmica aumentam, diminuindo a frustração e o desespero que levam muitos ao fracasso e à desistência.

 

Perguntas:

 

  • Quais novos recursos você poderá explorar para obter clareza e sustentar o seu objetivo?
  • Com quem você poderia conversar, tanto dentro quanto fora da escola? Quem poderia lhe oferecer o melhor e o mais recente conhecimento sobre esta questão ou preocupação?
  • Notou que, medida em que você continua tentando alcançar o seu objetivo, o esforço te fortalece e te permite imaginar novas estratégias para alcançar o que deseja?

 

Resiliência

 

Capacidade de um indivíduo de não só superar ou enfrentar adversidades, mas utilizá-la de maneira construtiva.

 

Um dos grandes alertas na educação é: a adversidade está em ascensão em todos os lugares e a resiliência é realmente importante. O apoio e os recursos são externos. A resiliência é interna e está em aproveitar o momento, inclusive na hora da adversidade – utilizando-a como combustível para alcançar seu objetivo da melhor maneira, devido ao aumento da força e do conhecimento que se vem trabalhando através da superação de um obstáculo difícil.

 

Não há nenhum lugar melhor para um aluno aprender e dominar essa distinção do que o ensino superior.

 

Perguntas:

  • Enquanto você não pode controlar esta situação, quais facetas dessa situação você pode pelo menos influenciar de forma potencial? Dentre elas, quais (qual) são (é) a (s) mais importante(s) para você?
  • Como você pode reforçar a diferença de maneira mais positiva e imediata, nessa situação?
  • Como você pode usar a sua experiência de lutar contra essa adversidade para realmente suprir a sua próxima tentativa de alcançar o seu objetivo?

 

Instinto

 

Propensão do indivíduo de perseguir as melhores metas, utilizando maneiras mais eficazes. Indiscutivelmente, um dos contribuintes mais consistentes e potentes para o fracasso, as desistências ou o desempenho baixo de um aluno é a falta de instinto.

 

A grande maioria dos alunos desperdiça tremenda energia, tempo e esforço perseguindo seus objetivos de maneiras e caminhos inferiores ao ideal. É por isso que muitos se perdem ou desistem e é por isso que é importante perguntar:

 

  • Quais (qual) ajuste (s) você pode fazer para atingir o seu objetivo, para que ele se torne ainda mais claro e convincente?
  • Que ajustes específicos ou mudanças pode você fazer na maneira de perseguir o seu objetivo, para acelerar e/ou aumentar as suas chances de alcançá-lo?
  • Na medida em que você pensa sobre o seu objetivo (por exemplo, graduação), de que maneira (s) pode você estar perdendo seu precioso tempo, energia, e/ou esforço?

 

Se você pudesse fazer menos de uma coisa e mais de outra, aumentando as suas chances de sucesso drasticamente, o que você faria?

 

Tenacidade

 

Grande persistência que faz um indivíduo buscar seus objetivos mais difíceis, importantes e de longo prazo.

 

Esta é a definição tradicional, clássica e básica de se ter garra. Ela inclui, também, duas definições importantes: sobre a garra eficaz e a ineficaz.

 

Quanto mais os alunos dominarem suas motivações e afunilarem seus métodos, maior será a probabilidade de prosperarem.

 

Perguntas:

 

  • Se você se recusasse totalmente a desistir e tivesse que dar o seu melhor esforço para obter o seu objetivo, como se você agiria para alcançá-lo de forma eficaz?
  • Como você pode se dedicar novamente e correr atrás de seu objetivo de uma maneira mais benéfica, e até mesmo inspiradora, para aqueles que o rodeiam?
  • Se sua vida dependesse de você se apoiar e atingir esse objetivo, o que você faria, que ainda não fez?

 

Como suprir os alunos para que eles permaneçam focados, não importe o que aconteça, de catástrofes naturais a catástrofes simples, nas adversidades de todos os dias?

 

Leia mais: Toda criança é capaz de aprender.

 

Crescimento, Resiliência, Instinto e Tenacidade significam mais do que garra. Significam posse. E transcendem conselhos antigos simples (até mesmo os do tipo paternal).

 

Enquanto cada uma dessas dimensões é poderosa por si só, quando as imaginamos juntas, elas se tornam as quatro facetas práticas da garra, que não apenas fortalecem os alunos, mas também podem permanentemente incutir neles um sentido de propriedade ao longo da vida, aprendendo, tomando decisões importantes e contribuindo com algo de valor, tanto para suas próprias vidas quanto para a sua sociedade.

 

Texto originalmente publicado em Pearson.

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