Empatia: exercício que liberta

por: Rosemari Glowacki

Começo esse texto citando Charles Hadji:

 

“Pensar ou (re)pensar a educação implica em acreditar na possibilidade de todos sermos educáveis; e, além disso,  acreditar na intervenção educativa. “É por ser inacabado que o ser humano é imediatamente educável (…) Falar de educabilidade é insistir sobre a necessidade da intervenção humana para o desenvolvimento do sujeito”. (HADJI. 2001. P. 3).

 

 

Somos educáveis, a intervenção positiva é possível. Mesmo neste cenário que acompanha a sociedade contemporânea de aceleração, ansiedade, depressão, transformações… A sociedade moderna vem sofrendo alterações em sua estrutura em altíssima velocidade.

 

As escolas têm tentado acompanhar todas essas alterações. Recebem diariamente cobranças em relação à formação de alunos-cidadãos cada vez mais críticos e atuantes.

 

Mais uma vez, as instituições escolares estão refletindo a dicotomia teoria X prática. Isso vem acontecendo de forma lenta. Para que as mudanças que tanto almejamos se concretizem, é preciso acelerar esse processo.

 

Na Dinamarca, por exemplo, país referência em educação infantil, e também um dos lugares onde as pessoas são mais felizes pelo “World Hapiness Report 2016” (“Relatório da felicidade no mundo 2016”, em tradução livre), a empatia é tema central discutido com os alunos ao longo dos anos na escola.

 

No sistema dinamarquês de ensino, “aprender” empatia é algo tão importante quanto aprender matemática ou literatura. Os currículos das escolas são construídos de tal forma a incorporá-la como uma disciplina fixa e estruturada. Porém, apesar da relevância do tema, levar a empatia para as escolas brasileiras ainda é um desafio.

 

Talvez esse desafio se imponha pela urgência do próprio professor desenvolver tais habilidades sociais. Tornar-se o protagonista das mudanças que se fazem necessárias é um grande desafio para os educadores. Anita Abed é uma  psicóloga que vem  há anos atuando no Brasil com o desenvolvimento de pessoas  e tem realizado trabalhos que buscam alinhar o aspecto emocional ao processo de aprendizagem.  Artigos, trabalhos que  buscam uma nova forma, através das escolas, de inspirar professores, alunos. Além dela, outros tantos têm contribuído.

 

A literatura que estuda essas interfaces da aprendizagem x teoria x prática é bastante significativa. Temos  muitos outros  autores trabalhando o tema, pensadores da Educação como Henri Wallon e Edgar Moran, psicólogos como Anita Abed e Zilda Del Prette/Almir Del Prette, pesquisadores como Anita Nowak e Howard Gardner, dentre muitos outros.

 

Mas é preciso que a comunidade escolar discuta o tema. Estude, se atualize. É urgente que o discurso da impotência seja substituído por falas enformadas de novas teorias, pelo discurso da esperança. Mais que isso: é preciso sentir! Sim, leitor (a), sentir… Porque empatia primeiro se sente! Trata-se de um exercício.

 

Ainda segundo ABED (2014):

 

“Infelizmente, as instituições de educação formal, no Brasil e no mundo, não vêm acompanhando esse ritmo alucinado de transformações. A escola como “a instituição responsável por transmitir conteúdos” não cabe nesse contexto, os paradigmas que sustentam a ação educativa precisam se adequar aos novos tempos e aos novos estudantes que as escolas recebem dentro de seus muros. (…) Conclusão: não há como preparar as crianças e jovens para enfrentar os desafios do século XXI sem investir no desenvolvimento de habilidades para selecionar e processar informações, tomar decisões, trabalhar em equipe, resolver problemas, lidar com as emoções…”.

 

(Re) pensar a educação e as relações é outro tema explorado por  Morin (2003), em Os sete saberes necessários à educação do futuro.

 

“O “chão da escola” precisa se transformar, mas é certo que nenhuma mudança será viável se os professores não tiverem o suporte necessário para assumir o papel de protagonistas privilegiados deste enredo, o que não é tarefa fácil, nem simples. Afinal, somos “seres do nosso tempo”, a maior parte dos educadores de hoje vivenciou uma escolarização tradicional, muitas vezes mecânica e esvaziada de sentidos. Ser “autor de mudanças” exige dos professores o desenvolvimento de suas próprias habilidades. Estes, para tanto, precisam que os gestores da escola cumpram seu papel na valorização, formação e apoio da equipe docente (…)”. (ABED, 2014, p. 8)

 

Sabemos que novas ideias podem transformar vidas. E a escola é um agente capaz de promover essas transformações, já que curiosidade e determinação são qualidades que podem, sim, ser ensinadas.  Chegou o tempo de ensinar também em nossas escolas a persistência, o autocontrole e empatia. Essa última, uma das mais impactantes habilidades.

 

Ampliar a fronteira de ação, auxiliar o professor a desenvolver a empatia parece ser o caminho para que nossos (as)  estudantes aprendam sobre essa prática. Somos seres sociais,  exemplo e treino são benéficos para o desenvolvimento atitudinal.

 

“ A empatia é a força mais poderosamente perturbadora do mundo, só fica atrás do amor”.  A frase é da professora e pesquisadora canadense da Universidade de Michigan Anita Nowack. Para ela que pesquisa este sentimento, a empatia é a chave para a sobrevivência da raça humana.

 

Vivemos tempos de intolerância e falar sobre empatia, e como o exercício de nos colocar no lugar do outro nos fortalece é libertador.  Tal comportamento evitaria muitos problemas vividos na escola: bullying, depressão, suicídios, assassinatos em massa. Vide os últimos casos de crianças que adentraram a escola com arma e vitimaram colegas. Vide casos suicídios, silenciados pela mídia na intenção de não alarmar ou incentivar sua prática.

 

Apesar de sermos seres cheio de falhas, podemos ter a tendência a simpatizar apenas com aqueles que se parecem conosco, ou pensam como nós. Os demais não inspiram nossa empatia. Libertar-se desse padrão mental é algo que precisa de fato acontecer. Só assim veremos  reflexo na sala de aula e próximas gerações. É incrível o poder do professor, mais incrível ainda que ele não se empodere nesse sentido. O estudante nem sempre respeita a fala do seu mestre, porém seu exemplo constrange, inspira.

 

Ou pensamos empaticamente, ou a violência, a intolerância e o bullying ganharão força. Sem gastar um segundo imaginando como o outro se sente, suas experiências ruins da infância, os problemas pelos quais passou e sem respeitar sua história não avançaremos. O que precisa ficar claro é que não há verdade absoluta e que toda questão tem no mínimo duas versões, dois pontos de vista.

 

“Se aprendemos a simpatizar melhor uns com os outros, poderíamos conseguir a paz”, afirma ainda Novak. É preciso agir — só sentir empatia não é suficiente. Leitor (a), vamos para a maior  academia do mundo chamada Vida, praticar esse exercício libertador?

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ABED, Anita Lilian Zuppo. O desenvolvimento das habilidades socioemocionais como caminho para a aprendizagem. São Paulo: 2014.

BARNETT, M. A. Empatía e respuestas afines en los niños. En N. Eisenberg & J. Strayer (Orgs.), La empatia y su desarrollo (pp. 163-179). Bilbao: Desclée de Brower. 2008.

BOEMER, M. R. Empathy — a phenomenological approach. Rev. Esc. Enf. USP, São Paulo, 1984.

CABALO, V.E. El papel de las habilidades em el desarrollo del las relaciones interpessoales. SP: ARBytes, 1997.

Del Prette, A. & Del Prette, Z. A. P. (2013). Habilidades sociais, desenvolvimento e aprendizagem: questões conceituais, avaliação e intervenção. São Paulo: Alínea.

.

MORENO , J. L. Fondements de la sociometrie. Boulevard, Presses Universitaires de France, 1970.

———————- Psicodrama. 3 ed. Buenos Aires, Ediciones Horme S.A.E., 1974.

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 8. ed. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2003.

PORVIR (Desenvolvido em parceria com o Instituto Ayrton Senna). Especial Socioemocionais. Disponível em: <http://porvir.org/especiais/socioemocionais/>. Acesso em: 31 junho. 2018.

UNESCO. Educação: Um tesouro a descobrir. Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI. Disponível em: <http://unesdoc.unesco.org/images/0010/001095/109590por.pdf>. Acesso em: 03 de junho. 2018.

 

Esse autor não tem outras matérias publicadas

Receba nossa News

A Educação é feita da união de conhecimentos. Preencha seu e-mail e receba nossos conteúdos atualizados!

*Não lote sua caixa de e-mail. Nossas newsletters são enviadas quinzenalmente e trazem um resumo dos melhores conteúdos publicados.