“Curso sobre algo que eu nem sei o que é” pesquisar – Bia Granja

por: Bia Granja

Faz 18 anos que me formei na escola. Durante todo o período em que eu estudei, eram pouquíssimas as fontes de conhecimento a que eu tinha acesso: professores em sala de aula, apostilas usadas nas salas de aula, a enciclopédia (no meu caso era a Barsa), meus pais e o Almanaque da Folha (quem aí se lembra?).

Além de serem poucas, as fontes também tinham alguns probleminhas:
Professores: por terem que ensinar um grupo grande de alunos ao mesmo tempo, acabavam por se limitar ao básico, raramente indo além do conteúdo burocrático das apostilas,
Apostilas: são limitadas por definição (e pelo MEC), existe muito mais no universo do que cabe em uma apostila.
Enciclopédia: muitos assuntos para poucas páginas, o que as deixava rasas (sem contar que eram chatas e quase não tinham imagens).
Meus pais: eram fofos, mas sabiam muito menos do que fingiam saber.
Almanaque da Folha: era muuuito moderno pra época, com infográficos e imagens coloridas, mas ainda limitado.

Com esse cenário onde o conhecimento se apresentava de um modo escasso e pouco diverso, era muito difícil para o aluno médio desenvolver um interesse real pelo tema. Eu não era má aluna, até gostava de estudar, mas achava que todos os recursos de aprendizagem eram extremamente limitados.

Foi no começo dos anos 2000, quando descobri o Google, que minha vida mudou. De repente, todo o conhecimento do mundo parecia estar a apenas um clique de distância. Bastava uma faísca, uma curiosidade, um pensamento e uma digitação no campo de busca para que o mundo se revelasse no meu browser.

Eu enlouqueci!

Passava horas e horas fazendo todo tipo de busca, das mais bestas às mais edificantes: “Guerra das Malvinas”, “como minhocas se reproduzem”, “tubarões das Ilhas Farallon”, “é verdade que Getúlio foi assassinado”, “quem eram os palhaços Atchim e Espirro nos anos 80”, “a loira do banheiro existe”, “como reciclar papel em casa”, “bia granja”.

Pra cada busca, algumas dezenas ou centenas de resultados apareciam na tela. E eu geralmente clicava em todos, lia tudo e ia ponderando e construindo na minha cabeça um resumo ou uma opinião. De repente de 5 fontes, eu tinha 20, 30, 50… E os olhares sobre os fatos do mundo eram diversos. Uma página podia conter links para outras páginas que me levavam a assuntos que eu nem sabia que existiam. A internet, via Google, me trouxe isso: a noção de que existia no mundo uma diversidade de olhares que eu nem imaginava serem possíveis.

Eu era tão obcecada e tão boa “de Google”, que lembro uma vez um chefe meu me sugerir abrir uma empresa de buscas, tipo “Personal Googler”.

Parece idiota, mas isso mudou tudo pra mim e, tenho certeza, mudou tudo pra quem era responsável pelo processo de aprendizagem de outros como eu. De repente, professores no mundo todo deixaram de ser os “guardiões” de todo o conhecimento. E as instituições de ensino, que representavam o começo, meio e fim do processo de aprendizagem, se tornaram apenas “mais uma fonte”.

O mundo que concebeu as escolas era outro, era industrial. E essa mentalidade se refletia na educação. Não a toa um dos hinos da época é Another Brick in the Wall, do Pink Floyd. Quem não lembra das crianças no clipe caindo dentro de moedores de carne?

Já faz tempo que essa concepção do que é educação está sendo questionada. Mas a internet, bem como toda a revolução digital e tecnológica, aceleraram “quanticamente” a necessidade de ressignificar o papel do educador, sempre tão preparado pra formar jovens às baciadas, no atacado.

Só que o mundo hoje é cada vez menos “no atacado”. Até as profissões mais de exatas e biológicas estão sendo constantemente desafiados por saltos e inovações tecnológicas. Muitas delas vindo de lugares distantes de grandes empresas e corporações. Vivemos a era em que qualquer pessoa pode desafiar qualquer pessoa, qualquer corporação. Youtubers se tornando centrais de entretenimento melhores do que a TV, carros que se auto-dirigem, impressoras que imprimem orelhas feitas de tecido humano, atletas vencedores de medalhas olímpicas que aprenderam o esporte com tutoriais no Youtube, máquinas que plantam e cultivam hortas gigantes sem ajuda humana e por aí vai.

O que eu faço hoje não foi aprendido dentro de uma sala de aula. Quem criou minha profissão fui eu. Ela é uma mistura da minha paixão pela variedade de visões de mundo que a internet me proporcionou com os interesses que me movem.

Um tempo atrás, tentei buscar um curso que pudesse me trazer conhecimento formal para essa profissão que eu criei e nem sei direito como definir. Mesmo com minhas habilidade de Googladora nível Ninja, o resultado da minha busca indicou: “Nenhum resultado encontrado”.

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