Classe de 2030

por: Entretanto

Uma criança que esteja hoje no início de sua fase escolar, provavelmente, entrará no mercado de trabalho em 2030.

 

Que postos de trabalho estarão disponíveis para ela, após o término de sua graduação? Será que existirão empregos dos mesmos modelos que os atuais? Será que a educação terá preparado esta criança para o trabalho?

 

Recentemente, fui moderador de um painel sobre o futuro dos empregos, com base em algumas pesquisas que realizamos na Pearson: na SXSWedu 2017, uma conferência voltada para a inovação educacional que atrai uma ampla audiência.

 

Embora o futuro dos empregos seja um assunto frequentemente discutido, nossos pesquisadores estão se aprofundando nesta questão com um pensamento: o quê, afinal, nos permite começar a inovação da educação com muitos dos fatores humanos que impulsionam essa mudança? O objetivo final do trabalho desenvolvido pela Pearson é responder a uma questão muito prática: o que os sistemas de educação precisam fazer de maneira diferente, preparando as pessoas para esse novo horizonte de possibilidades?

 

Para começar a responder a esta pergunta, primeiro precisamos nos conscientizar das tendências globais – além da tecnologia – que afetarão os empregos: globalização, urbanização, envelhecimento da população e mudanças climáticas, entre outras. Uma vez que identificamos essas tendências, reunimos especialistas para debater seu impacto nos empregos atuais.

 

Nosso próximo passo – que é onde as coisas realmente se tornam interessantes – é utilizar as tecnologias para buscarmos padrões nestas previsões. Se fizermos uma previsão de que a demanda por empregos A e B aumentará, quais as implicações que isso terá para o trabalho C, trabalho D, trabalho E, e assim por diante? Até então, a análise será realizada em um nível de micro-habilidades.

 

Ao usar essa metodologia inovadora, nossa esperança é que identifiquemos padrões que outros ainda não encontraram, permitindo-nos compreender melhor os empregos do futuro e como podemos preparar as pessoas para eles.

 

Então, quais são as tendências que estamos considerando?

 

A tendência mais óbvia é a tecnológica. Seu impacto na paisagem do trabalho é extremamente claro. Por exemplo, sabemos que a automação (por exemplo, robôs) reduzirá drasticamente a demanda por muitos empregos. Porém, também sabemos que existe um campo ainda emergente de “cobotics” – humanos cooperando com robôs – que pode abrir um conjunto inteiramente novo de possibilidades.

 

Outra tendência importante é o envelhecimento: com menores taxas de fertilidade no mundo ocidental e aumento da expectativa de vida, a média da idade da sociedade está aumentando. Se essa tendência persistir, podemos esperar que a demanda por atendimento “delivery”, ou seja, tratamentos de saúde feitos em casa, aprendizagem ao longo da vida e cuidados com o envelhecimento em geral aumentem. Tome como exemplo pensar na interação entre envelhecimento e tecnologia: a demanda por parte dos profissionais de saúde aumentará ou diminuirá?

 

Outra tendência interessante é a urbanização: com 2.5 bilhões de pessoas sendo esperadas para nascer nas próximas três décadas, como isso mudará a sociedade e a natureza dos empregos? À medida que mais pessoas se mudam para as cidades, como vamos parar o declínio das oportunidades econômicas para as áreas rurais, por exemplo?

 

Além disso, nossos especialistas também estão considerando várias outras tendências – a globalização e as mudanças climáticas são as principais – e como elas moldarão a paisagem do trabalho de 2030.

 

Leia mais: O futuro das habilidades e qualificações profissionais, por Vincent Bonnet.

 

Alguns caminhos interessantes

 

Embora grande parte dessa pesquisa ainda esteja em andamento, o painel do SXSWedu levantou alguns pontos-chave:

 

  • A conversa sobre empregos deve ser mais generalizada. Não ouvimos muito sobre o impacto relativo dessas tendências em empregos tradicionalmente masculinos versus empregos tradicionalmente femininos. Por exemplo, empregos de fabricação – que estão em grande risco – são tradicionalmente vistos como empregos masculinos. Considerando que, o ensino – que pode estar em menor risco – é visto como um trabalho predominantemente feminino. Veremos um equilíbrio crescente na participação da força de trabalho? Em caso afirmativo, qual o impacto que isso poderia ter na sociedade?

 

  • Seu tipo de emprego pode não importar tanto quanto você pensa. A sabedoria predominante tem sido que os trabalhos considerados “tradicionais”, como em indústrias ou serviços, correm maior risco, enquanto outros tipos de emprego, como os feitos em setores de tecnologia, provavelmente serão seguros. Não é mais verdade. As mudanças para os setores trabalhistas está ocorrendo antes mesmo da inserção da inteligência artificial em nosso cotidiano. Por exemplo, o setor de serviços financeiros está em meio a grandes distúrbios devido à negociação algorítmica, que é a negociação automatizada por computadores. Embora ainda não seja perfeito, muitos especialistas dizem que é apenas uma questão de tempo antes de os retornos financeiros algorítmicos serem superiores aos humanos. Outro exemplo é do mundo do imposto: o supercomputador Watson da IBM, que atua como uma plataforma de serviços cognitivos para negócios (e que utiliza a mente humana para adquirir conhecimento a partir de informações recebidas) agora é capaz de otimizar as declarações de impostos dos norte-americanos ao “ler” o código de imposto dos Estados Unidos inteiro. Isso fará com que os especialistas fiscais humanos sejam obsoletos e considerados relíquias do passado?

 

  • Com a destruição, vem a criação. Não são todas más notícias. Sempre que empregos foram destruídos na história devido à tecnologia, novos vieram para substituí-los. Quando a planilha eletrônica foi inventada, milhares de calculadoras humanas ficaram temporariamente fora do mercado de trabalho. Mas logo depois, as pessoas viram que podiam usar essas planilhas para avaliar vários cenários para seus negócios, dando origem a planejadores financeiros.

 

  • Dois novos modelos de educação surgirão. O ritmo de mudança está se tornando mais rápido. Para acomodar, todos precisamos constantemente aprender novos conhecimentos e habilidades, o que pode levar à proeminência de dois modelos educacionais. O primeiro modelo, que se assemelha a uma educação de artes, incluirá um investimento no modelo “aprender a aprender. O segundo modelo, que se assemelha à educação técnica tradicional, será um investimento mais leve e inicial para obter “capacitação para o trabalho”, mas exigirá um maior compromisso de tempo com cada carreira sucessiva.

 

  • O impacto na sociedade é incognoscível. Durante décadas, as pessoas estão prevendo o pior. Na década de 1930, o famoso economista britânico John Maynard Keynes, cujas ideias mudaram fundamentalmente a teoria e prática da macroeconomia, bem como as políticas económicas instituídas pelos governos, previa que a tecnologia tornaria os seres humanos redundantes. Embora isso não tenha acontecido – pelo contrário, todos estamos trabalhando mais do que nunca – a invenção da inteligência artificial faz você se perguntar se estamos à cúspide de uma versão do século XXI da Revolução Industrial. Se a robótica e os sistemas artificialmente inteligentes realmente assumem mais de nossos empregos, o que isso significará se 50-60% do país não tiver um emprego? Vamos adotar uma renda básica universal? Será que mais homens ficariam fora do emprego do que as mulheres, levando a uma mudança nos papéis tradicionais de gênero? Se menos pessoas conseguirem alcançar um “significado” em suas carreiras, o que isso significará para a sociedade?

 

Estas são apenas algumas das coisas que foram pensadas na conferência SXSWedu, e há tanto que ainda não se sabe sobre o futuro. Mas uma coisa é clara: ele não será estável. O mercado de empregos de hoje não será absolutamente o mercado de trabalho de amanhã.

 

A única coisa que podemos fazer, com certeza, é estarmos prontos para mudar e aprender, para que possamos continuar a ter e proporcionar uma educação efetiva, que levará a melhores empregos e melhores vidas para as pessoas em todo o mundo.

 

Para saber mais sobre esta pesquisa, clique aqui.

 

Texto originalmente publicado em Medium.

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