A capacidade de aprender, desaprender e reaprender

por: Entretanto

Tudo está mudando muito rápido. Com o advento das tecnologias, principalmente dispositivos móveis, você, professor, já deve ter sentido a grande diferença em dar aulas há dez anos e agora. Mas você sabe o que significa ser um professor do século 21? E como saber se você está à frente para aceitar o que chamamos de habilidades desta nova era?

 

Na verdade, dizer “habilidades do século 21” soa um pouco inadequado. As habilidades valorizadas nos tempos atuais estão presentes no ensino e na aprendizagem, desde que os termos “ensino e aprendizagem” passaram a existir de verdade.

 

Sócrates e Aristóteles se sentiriam em casa, em uma sala de aula atual. Afinal, pensar na sala de aula agora já implica em pensar em um espaço de experimentação e pronto para atender às necessidades de aprendizagem na prática. Muitas disciplinas já envolvem experiências laboratoriais, o que permite inovação, desenvolvimento e grandes avanços nos setores de tecnologia das indústrias e de seus segmentos.

 

E para quem acredita que isso deve envolver apenas tecnologia de ponta e itens de alto custo, uma sala de aula do século 21 moderna pode ser, na realidade, um lugar com um orçamento surpreendentemente baixo.

 

Até porque, as habilidades do século XXI se resumem em quatro itens:

 

● Comunicação
● Pensamento crítico
● Criatividade
● Colaboração

 

Ao ler esta lista, você pode pensar, “Pois bem, como professor, estes são os meus objetivos em sala de aula!”. É evidente que, ao descrever essas habilidades não estamos apenas falando sobre o ensino, mas também das habilidades que podem ser usadas para preparar os alunos emocionalmente para a vida. Isso significa que queremos que nossos alunos sejam capazes de:

 

● Atuar de maneira independente e em grupos, mesmo em um ambiente com tecnologia altamente avançada
● Estar preparados para uma interação diária e global;
● Pensar de forma criativa, adaptável e flexível;
● Entender como planejar, construir e incluir a colaboração de parceiros, em suas áreas de atuação

 

Isso vai muito além da tecnologia. Preparar nossos alunos para o século 21 não requer uma sala de aula que se pareça com um cenário de um filme de ficção científica. Alguns professores demonstram, com exemplos simples, como incorporar as habilidades acima nos alunos:

 

Sergio Correra é um professor jovem e inspirado, que trabalha em uma escola de ensino fundamental localizada na fronteira dos Estados Unidos com o México. Após passar um ano lecionando para alunos visivelmente desmotivados, decidiu voltar ao ponto inicial.

 

Ele passou um tempo pesquisando formas de melhorar o envolvimento e o desempenho dos alunos, deparando-se com uma pesquisa muito interessante que pôde ser resumida a uma simples pergunta: por que? Ou melhor, ele instigou os alunos a fazerem a pergunta: “por que?”. No início do ano letivo, ele colocou as carteiras em círculo, sentou-se com estes alunos e perguntou: “O que vocês querem aprender?”. Usando esta pergunta como ponto de partida, ele encorajou os alunos a fazerem perguntas, a buscar mais informações e a encontrar mais perguntas para as respostas.

 

No ano seguinte, ele observou que as notas das provas de seus alunos aumentaram, o engajamento e o entusiasmo melhoraram e recebeu a aprovação da direção e dos colegas educadores. Com poucos recursos e acesso limitado à tecnologia, ele conseguiu que seus alunos mudassem, de um grupo que ocupava a posição das menores notas em avaliações, para um grupo que passou a ser classificado entre as notas mais elevadas. Um dos alunos conseguiu, inclusive, obter a maior nota em matemática em uma das provas padronizadas, que é realizada em todos os municípios dos Estados Unidos.

 

O Sr. Correra foi inspirado pela pesquisa do educador indiano Sugata Mitra. O princípio por trás da abordagem do Sr. Mitra é instigar a curiosidade dos alunos, deixando-os conduzir seu próprio aprendizado. Em um dos seus exemplos mais famosos, ele entrou em uma sala de aula na Índia, deixou caixas cheias, e explicou aos curiosos alunos que dentro das caixas havia uma coisa interessante.

 

E então, ele deixou que estes alunos descobrissem sozinhos o que havia lá dentro.

 

No decorrer de um ano os alunos haviam aprendido sobre tudo, de inglês a biologia molecular. Eles foram motivados por sua curiosidade natural e aproveitaram as descobertas uns dos outros para aprenderem cada vez mais, vivenciando o que realmente significa ser auto-guiado, inovador, colaborador e aprendizes curiosos.

 

Na prática

 

Claramente, estes alunos se motivaram através da liberdade que tiveram, e assim foram capazes de elaborar suas próprias perguntas. Porém, ao mesmo tempo que esta atitude pode ser maravilhosa para os alunos, ela pode levantar dúvidas nos professores a respeito do seu papel. Para conseguir se adaptar às habilidades do novo século, precisamos nos desfazer de nossas grades curriculares e nossos livros, acreditando que os alunos apenas se motivarão voluntariamente?

 

Este não é o caso. Nós, enquanto educadores, podemos aprender lições com o Sr. Correra e o Sr. Mitra, e usá-las como forma de inspirar o interesse e o engajamento em nossa própria sala de aula. Nosso papel é direcionar o aluno para que ele possa encontrar o que é relevante no conteúdo, o que é útil e que promove a inovação.

 

Pense em uma aula de gramática, por exemplo. Mesmo com a disposição em aprender, os alunos precisam entender as regras, aplicá-las e desenvolvê-las. Que tal testar um plano de aula? Confira os exemplos:

 

Colaboração: Comece distribuindo revistas ou livros ilustrados. Faça com que os alunos colaborem e, juntos, escolham uma foto.

 

Comunicação, Pensamento Crítico e Criatividade: Peça a seus alunos que trabalhem em conjunto e criem formas de direcionar uma pessoa a um determinado local; um kit de instruções para um aluno que seja cego e um outro kit de instruções para um aluno que seja surdo. Incentive os alunos a pensarem de forma criativa e a pensarem em maneiras de fornecer as direções usando um computador, um telefone celular, uma televisão ou um vídeo do YouTube. Observe o andamento.

 

Uma outra forma de criar um clima de envolvimento é lançar questionamentos básicos como: “Qual é sua comida preferida?”.

 

Colaboração: Em grupos, peça para os alunos criarem uma pesquisa para avaliar o interesse da sala de aula em 10 alimentos diferentes que representem tipos diferentes de refeições (café da manhã, almoço, jantar e sobremesa).

 

Comunicação: Quando terminarem, peça aos alunos para usarem as informações para criarem um gráfico comunicando os resultados e determinando quais são as preferidas.

 

Pensamento crítico: Peça aos alunos para compararem suas respostas com as respostas dos outros grupos. Há quantas diferenças no relatório? As informações são consistentes para os mesmos tipos de comida ou mudam drasticamente?

 

Peça aos alunos para compararem seus resultados com os das outras equipes. Em seguida, peça aos grupos que escrevam algumas linhas ou criem um pequeno discurso para explicar em que parte seus resultados são diferentes dos de outros alunos.

 

Criatividade: Usando as informações coletadas na sala de aula, depois de analisar os dados de outros alunos, peça para que os grupos trabalhem juntos na criação de uma campanha publicitária que transforme as comidas que os alunos menos gostam em comidas que eles mais gostam.

 

Para fazer isto, os alunos deverão considerar o que faz certos tipos de alimentos serem mais populares no grupo. É claro que isso pode exigir um acompanhamento mais detalhado, como entrevistas, para descobrir o porquê de os alunos gostarem de uma coisa e não de outra, e estas informações poderão ser usadas na campanha.

 

Ambos os exemplos descrevem o uso das habilidades do século 21 dentro da sala de aula. Cada aula também inclui, de uma maneira ou de outra, habilidades importantes do novo modelo. Na aula de gramática, ainda assim os alunos podem usar engenharia e tecnologia para encontrar uma maneira melhor de fornecer direções. Em nossa aula de comidas preferidas, os alunos se envolvem com as disciplinas de ciências (e um pouco de sociologia) e matemática.

 

Tudo isso se torna uma experiência de sala de aula de mesa redonda, onde os professores têm um papel ativo como facilitadores e os alunos tornam-se inspirados, aprendizes auto-guiados e que ainda conseguem trabalhar dentro dos limites da grade curricular.

 

No final, as habilidades do século 21 e como usá-las em sala de aula, não estão necessariamente atreladas ao ensino. Estas habilidades, que trarão sucesso aos nossos alunos no futuro, estão relacionadas à capacidade deles de serem indivíduos independentes e curiosos. Nosso desafio real como educadores é o de despertar a vontade de abraçar o conhecido, e principalmente o desconhecido.

 

É como Alwin Toffler, escritor e futurista, diz: “Os analfabetos do século XXI não serão aqueles que não podem ler e escrever, e sim aqueles que não conseguem aprender, desaprender e reaprender.”

 


Este artigo foi publicado pela primeira vez na revista Online KOTESOL. Sara Davila é uma professora e educadora que passou mais de uma década imersa no estudo da pedagogia da linguagem comunicativa e no ensino direcionado ao aluno diferenciado. Ela atualmente está informando a próxima geração de currículos como especialista em aprendizagem da Pearson English.

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