A arte na educação infantil: Passatempo ou Aprendizagem?

por: Suzana Sabatini

A arte, em suas diversas modalidades, contribui com o desenvolvimento das capacidades de expressão, comunicação e construção de saberes na Educação Infantil. Para tal, este artigo objetiva investigar como ela auxilia o processo de ensino-aprendizagem e o desenvolvimento nos primeiros anos de vida da criança, visto que algumas pessoas podem perceber esse trabalho apenas como uma forma de passatempo ou distração para as crianças.

 

Para a realização deste trabalho me apoiei na pesquisa bibliográfica. Os resultados neste processo de inserção, incentivo e acompanhamento da arte no cotidiano da Educação Infantil levam o aluno a despertar o senso crítico, o gosto pela beleza e organização, além de estimular a percepção, a observação e a imaginação criadora. Desta forma, para entendermos o verdadeiro significado da expressão artística da criança, devemos respeitar o processo de criação dela, pois, assim, a criança estará adquirindo experiências importantes para seu desenvolvimento.

 

Também apliquei este estudo com uma turma de crianças da Educação Infantil. A turma foi dividida em sete grupos e cada grupo recebeu um livro infantil somente com gravuras. Elas tiveram que criar as histórias de acordo com as gravuras e dramatizá-las.

 

As crianças aprendem desde que nascem. Estimular a imaginação das crianças é desenvolver um ser humano capaz de atuar em sociedade de forma segura e confiante em sua capacidade criadora.  Pensando nisso, busco o conhecimento por meio de subsídios teóricos que referenciam este tema, o que é o mesmo que procurar entender se a arte exerce influência na forma de expressão, crescimento e desenvolvimento da criança no cotidiano de sua educação ou se a mesma representa apenas uma formalidade para desenvolvimento das áreas no trabalho da Educação Infantil. Para tal, o objetivo geral desta reflexão é analisar se o trabalho no ensino de arte no cotidiano da Educação Infantil representa para as crianças suas expressões, suas reações emocionais e suas preferências.

 

Vamos também, ao longo dos próximos textos, demonstrar a trajetória da arte, compreendê-la na Educação Infantil e identificar a arte na formação do professor.

 

A arte na formação da criança

 

Os homens, ao longo de sua história, tiveram que criar simbolismos para comunicarem-se uns com os outros. Desta forma, estruturou-se a linguagem como uma forma de expressão e compartilhamento de saberes. Nesta construção de culturas, os homens descobriram conhecimentos variados acerca da natureza, da sociedade, das ciências e das artes.

 

Nas artes, encontraram diversas formas de expressão e linguagens como artes visuais, a música, a dança, o teatro e a literatura. A criança, neste contexto de conhecimento e interação com as diferentes culturas, vai se inserindo, se apropriando, se reinventando, descobrindo e transformando esses conhecimentos à sua maneira, dependendo da fase de desenvolvimento em que se encontram e dos seus interesses de aprendizagem.

 

Na Educação Infantil, essa inserção se faz importante e necessária para que as crianças tomem conhecimento dos diferentes sistemas simbólicos criados pelo homem, possibilitando que compartilhem seus entendimentos das diferentes formas de comunicação e expressão. As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Básica definem, em seu art.9º, incisos II e IX, que instituições escolares devem ser garantir em seus espaços experiências que:

 

“[…] favoreçam a imersão das crianças nas diferentes linguagens e o progressivo domínio por elas de vários gêneros e formas de expressão; gestual, verbal, plástica, dramática e musical, bem como […] promovam o relacionamento e a interação das crianças com diversificadas manifestações de música, artes plásticas e gráficas, cinema, fotografia, dança, teatro, poesia e literatura. (BRASIL, CNE/CEB, 2009,p.99)”.

 

A criança, na sua forma de comunicação e expressão, pode aproveitar de diferentes modalidades da arte: pintura, desenho, escultura, teatro, entre outras, que expressem suas ideias, medos, alegrias e frustrações. De acordo com Ferraz e Fusari:

 

“a arte se constitui de modos específicos de manifestação da atividade criativa dos seres humanos ao interagirem com o mundo em que vivem, ao se conhecerem e ao conhecê-lo”. (Ferraz e Fusari, 1993, p. 16).

 

Porém, a arte, muitas vezes, ainda é trabalhada em sala de aula apenas como recurso em dados momentos específicos, como datas comemorativas, como nos relata os PCN-Artes (1997), nas Referências Bibliográficas, ou como construção orientada para cumprimento de carga horária.

 

O RCNEI mostra que:

 

“A presença das artes visuais na Educação Infantil, ao longo da história, têm demonstrado um descompasso entre os caminhos apontados pela produção teórica e prática pedagógica existente. Em muitas propostas, as práticas de artes são entendidas apenas como meros passatempos, em que atividades de desenhar, colar, pintar e modelar com argila ou massinha são destituídas de significados. Outra prática corrente considera que o trabalho deve ter uma conotação decorativa, servindo para ilustrar temas de datas comemorativas, enfeitar as paredes com motivos para os pais, etc. Nessa situação é comum que os adultos façam grande parte do trabalho, uma vez que não consideram que a criança tem competência para elaborar um produto adequado. (BRASIL 1998, p. 87)”.

 

 

Desta forma, o fazer artístico da criança é suprimido, barrando sua capacidade criativa e sua forma de expressão para uma possível transformação da leitura do mundo no qual está inserido. A construção da capacidade de criação na infância é uma forma da criança manifestar a sua compreensão da realidade que o cerca, de exercitar sua inteligência ao criar, alterar, organizar e reorganizar elementos plásticos, é uma construção do ser humano.

 

Na sua interação com o mundo, ela vivencia inúmeros contatos com experiências estéticas que envolvem ideias, valores e sentimentos, experiências estas que envolvem o sentir e também o pensar e o interpretar. Portanto a linguagem visual faz parte da formação integral do indivíduo e não pode ser desconsiderada no contexto da Educação Infantil. (MORENO, 2007, p.44).

 

Neste aspecto, trabalhar as diferentes formas de arte na educação é de fundamental importância para a formação humana, especialmente na Educação Infantil, momento em que a criança expressa a arte de forma diferente da visão do adulto. Para a criança, a composição de seus trabalhos é uma forma de prazer e satisfação em forma de brincadeira, não tendo no resultado final da obra seu foco principal. Para o adulto, a prioridade da estética e do belo é fator predominante. Portanto, respeitar a criação da criança nas suas diferentes produções é favorecer a capacidade de expressão, atribuindo sentido ao mundo que a rodeia por meio da linguagem artística.

 

Se o educador não compreende o desenho da criança como um processo de criação, como linguagem que é, pode reforçar equívocos em sua prática, tais como a utilização do desenho pronto para colorir (antigamente mimeografado, hoje, xerocado ou impresso) e da cópia. Afinal, se “[…] a arte se define justamente pela diversidade, por propor algo que é pessoal e único (…) temos que descartar toda atividade que tenha como ponto de partida a uniformidade”. (MOREIRA, 2002, p. 84).

 

Arte é um termo que vem do latim e que significa técnica/habilidade. Por estar ligada à história do homem e do mundo, sua definição varia de acordo com a época e cultura. Sua história consiste em uma ciência que estuda os movimentos artísticos, as modificações na valorização estética, as obras de arte e os artistas.

 

A educação em Arte propicia o desenvolvimento do pensamento artístico, que caracteriza um modo particular de dar sentido às experiências das pessoas. Por meio dela, a criança amplia a sensibilidade, a percepção, a reflexão e a imaginação. Aprender Arte envolve, basicamente, fazer trabalhos artísticos, apreciar e refletir sobre as formas da natureza e sobre as produções artísticas individuais e coletivas de distintas culturas e épocas. (BRASIL, 1998, p.19).

 

Através da história da arte, é possível aprender um pouco sobre a evolução do homem e da tecnologia. A mesma significa um importante elo entre a cultura e a relação com as pessoas. Segundo as autoras Fusari e Ferraz (2009, p. 17), a educação através da Arte é, na verdade, um movimento educativo e cultural que busca a constituição de um ser humano completo, total, dentro dos moldes do pensamento idealista e democrático.

 

Fusari e Ferraz (2009, p. 17,18) dizem que com a “Educação Artística incluída no currículo escolar pela Lei 5692/71, houve uma tentativa de melhoria do ensino de Arte na educação escolar, ao incorporar atividades artísticas com ênfase no processo expressivo e criativo das crianças”.

 

Desta forma:

 

[…] passou a compor um currículo que propunha valorização da tecnicidade e profissionalização, em detrimento da cultura humanística e científica predominante nos anos anteriores. […], além disso, geralmente, a Educação Artística é enfocada de modo muito abrangente e, os professores se comprometem com objetivos que, por sua própria natureza, configuram-se como inatingíveis. (FUSARI; FERRAZ, 2009, p. 18).

 

O ensino de arte nos últimos anos têm sido muito discutido, tendo acrescido ao currículo escolar da educação básica a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação 9.394/96 (LDB), e apresenta, ainda, uma problemática de dimensão curricular e didático-metodológica. Curricular porque ainda não se faz presente, como campo de conhecimento, em todas as escolas de Educação Infantil, principalmente da rede pública e didático-metodológica, devido às inadequações e inúmeros equívocos que surgem atrelados à sua utilização.

 

O trabalho pedagógico têm tomado direções distintas, à medida que os próprios educadores apresentam incompreensão sobre o significado e o sentido de arte na escola. É comum a visão desse ensino como passatempo, momento para relaxar ou como execução de tarefas mecânicas. Há alguns anos atrás o aluno que se destacava era aquele que copiava exatamente como o modelo. Aos poucos essa prática deu lugar à expressão livre valorizando o aluno que cria sua própria arte.

 

Hoje, cada proposta precisa ser contextualizada, para que não se torne uma atividade solta. É preciso que o professor deixe clara a razão de estar trabalhando uma atividade e que conteúdos de arte estão sendo abordados. É necessário que a criança tenha uma referência histórica, que a mesma saiba o que irá produzir e apreciar, que expresse seus sentimentos e suas emoções para que sua produção tenha sua identidade, seu estilo.

 

Qual a finalidade do ensino da arte?

 

Sem a arte nosso entendimento do mundo e de nós mesmos fica empobrecido. Conhecer e entender a arte produzida pelo grupo cultural a que pertencemos é fundamental na construção da nossa identidade. Portanto, a arte é também um meio de comunicação entre pessoas e os povos, dando-nos a oportunidade de ampliar nossa visão de mundo. Duas concepções: a pedagógica e a expressiva predominam no correr da história das artes. Essas concepções estão relacionadas às finalidades da atividade artística.

 

A concepção pedagógica encontra sua primeira formulação em Platão e Aristóteles. Na República, expondo a pedagogia para a criação da cidade perfeita, Platão exclui da polis os praticantes das artes imitativas. Para o filósofo grego Aristóteles, a arte era uma imitação da realidade. Esse conceito, mais tarde, foi duramente refutado por diversas correntes artísticas que compreendiam que a arte não era somente baseada na imitação da realidade, e sim, na criação. Em uma outra perspectiva, a arte é concebida como expressão que transforma em um fim aquilo que, para as outras atividades, é um meio. A arte inventa um mundo de cores, formas e volumes, massas e textura para dar a conhecer nosso próprio mundo.

 

“A arte pode ser compreendida como um dos mais válidos recursos para expressar ideias e sentimentos em determinados momentos da vida humana”. (Mosquera, 1976, p.99). Portanto, a arte nos reporta a fluir nossos pensamentos, mantendo nossa mente aberta diante das diversidades culturais, construindo assim nossa própria identidade.

 

A LDB 9.394/96, os PCNS e Referenciais Curriculares posteriores a ela instituíram o ensino das artes e desenvolveram a música (e também o teatro, a dança e as artes visuais) e conferiram-na o status de disciplina. A partir de Congressos Nacionais e Internacionais sobre Arte e Educação, organizados pelas Universidades e pela Federação Nacional dos Arte-educadores do Brasil – FAEB (criada em 1987) passou-se então a discutir questões sobre o curso de arte, nas diversas linguagens artísticas, da pré-escola até a universidade, incluindo a formação de profissionais educadores que trabalham com arte.

 

Em grupo, lutou-se para que a arte se tornasse presente nos currículos das escolas de Educação Básica no Brasil e que fizesse parte da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996. Nos últimos anos, os educadores vêm se rearticulando para mostrar à sociedade a importância da arte na formação dos alunos, desde a Educação Infantil, pois ajuda no desenvolvimento do aprendizado cognitivo, na capacidade lógica, na motricidade, no desenvolvimento estético e na socialização, além de ser um elo entre as diversas manifestações da cultura nacional.

 

Leia no próximo texto: Arte na Educação Infantil e sua influência no futuro da aprendizagem.

 

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