Arte na Educação Infantil e sua influência no futuro da aprendizagem

por: Suzana Sabatini

A história da Educação Infantil no Brasil tem mais de cento e cinquenta anos, porém o seu crescimento deu-se a partir dos anos 70, aumentando gradativamente até os anos 90. No início, ela tinha caráter assistencial, e eram atendidas em instituições filantrópicas. Os cuidados com alimentação e saúde eram prioridades. Mais tarde, passa a ser educacional, tendo na Pré-Escola importância para o futuro do país. Entre as décadas de 80 e 90, a Arte na Educação Infantil assume um caráter voltado à recreação.

 

Nos anos de 1982, o Ministério da Educação e Cultura- MEC orientava os educadores infantis com os Cadernos de Atendimento ao Pré-Escolar. Nos anos 90, o MEC lança o Caderno do Professor da Pré-Escola, no qual já existia uma proposta mais reflexiva, com técnicas a serem trabalhadas e com preocupação em entender o trabalho artístico das crianças. Porém com as transformações da sociedade, este estudo merece ser revisto e atualizado.
“As opções e atos pelos quais são encaminhados o processo educativo escolar na área artística devem ser continuamente discutidos, propostos e avaliados pelos professores”. (Ferraz e Fuzari, 1993,p.101).

 

Em 1996, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB 9.394/96 – tornou obrigatório o ensino de arte na educação básica. Em 97, foram criados também os Parâmetros Curriculares Nacionais. De acordo com os Referenciais Curriculares Nacionais da Educação Infantil (RCNEI)- 1998, as Artes Visuais na Educação Infantil, ao longo da história, eram entendidas como mero passatempo. A definição de criança está organizada nos RCNEI (1988) como sendo:

 

“a criança como todo ser humano, é um sujeito social e histórico e faz parte de uma organização familiar que está inserida em uma sociedade, com uma determinada cultura, em um determinado momento histórico. É profundamente marcada pelo meio social em que se desenvolve, mas também o marca”. (BRASIL, 1998, p.21).

 

Na Educação Infantil, iniciam-se os primeiros trabalhos da construção de conceitos, ampliação do convívio social, além do conhecimento do mundo proporcionado pelo núcleo familiar. A criança, neste período, desponta com muita fluidez em sua criatividade. Com o objetivo de ampliar seu conhecimento e a descoberta de suas potencialidades, a arte se faz presente, valorizando suas diferentes formas de expressão e comunicação com o meio. Valorizar e incentivar a criança em suas produções artísticas é abrir possibilidades de formar cidadãos criativos conscientes de sua participação na sociedade.

 

Desenvolvimento de criatividade e visão de mundo da criança

 

A criança expressa sua atividade criadora à medida da apropriação do conhecimento das coisas e daquilo que é importante para ela. O ambiente onde a criança se desenvolve é fundamental para sua formação. Um ambiente rico em estímulos, amor e compreensão influenciará na constituição de valores, crenças, sentido crítico e criatividade do ser humano. A escola, por ser uma extensão de sua casa e onde a criança passa grande parte da vida, é ideal para o desenvolvimento do potencial criativo.

 

Nesta perspectiva de proporcionar à criança condições para que a mesma sinta-se como o sujeito que pensa, sente e crê, ou melhor, sinta-se autora da atividade criativa, o professor deverá assumir posturas coerentes, que possibilitem a valorização e o respeito aos interesses das crianças.

 

Diante disso o professor deverá propor desafios e delimitar condições para que a criança conheça o novo através de suas potencialidades. Para a criança, ao realizar seu processo criador, sua mente já está elaborando algo, o que faz com que seu raciocínio e sua habilidade para pensar fiquem estimulados. Para o adulto, este processo do pensar em alguma coisa antes de realizar sua atividade criadora não possui grande significado. Mas, para a criança, é a demonstração do conhecimento das coisas e de sua relação com elas.

 

A criança relaciona seu processo criativo àquilo que conhece e que lhe é importante. Desta forma, estará expressando suas reações emocionais, bem como as coisas que lhe agradam ou desagradam. Oferecer meios de descobrir e explorar o mundo das artes respeitando a individualidade de cada criança conduz a mesma a pensar de maneira independente e com autonomia, levando os indivíduos a serem mais completos e felizes.

 

Influência do adulto

 

A criança, em sua grande maioria, se expressa livremente e de maneira própria. Muitas vezes essa expressão é contida pela interferência provocada pelo adulto já em suas primeiras demonstrações em família. Cabe salientar que, dependendo do nível de interferência, isso pode agir negativamente ou positivamente.

 

A interferência positiva relaciona-se na oferta de materiais para construção de sua arte e no incentivo a realização de atividades artísticas. A interferência negativa acontece, em grande parte, devido à falta de conhecimento das fases em que a criança se encontra.

 

A criança, ao manifestar que “não sabe desenhar”, estará dando sinal que houve interferência do adulto no seu processo de criação artística.

 

Tudo quanto pudermos fazer para estimular a criança no uso sensível dos seus olhos, ouvidos, dedos e do corpo inteiro servirá para enriquecer sua reserva de experiências e a ajudará em sua expressão artística (LOWENFELD, 1977, p. 108).

 

Lowenfeld acredita que num sistema bem equilibrado, em que o desenvolvimento do ser integral é realçado, o pensamento, o sentimento e a percepção do indivíduo devem ser igualmente desenvolvidos, a fim de que possa desabrochar toda a sua capacidade criadora em potencial.

 

Influência da arte no futuro da criança

 

Segundo estudos de psicólogos, o ser humano sofre as maiores influências durante a primeira infância. Neste período, a personalidade da criança em formação está em desenvolvimento para a vida futura. As influências do meio influenciam na personalidade e forma de vida do ser humano.

 

“Ficou comprovado, sem nenhuma sombra de dúvida, que a Arte exerce influência fundamental sobre o desenvolvimento da personalidade infantil e, portanto, também sobre o futuro das crianças. Não somente influi na capacidade de adaptação emocional da criança, como também lhe fornece os meios para tornar sua vida mais rica e mais bela”. (Lowenfeld,1977,p.216).

 

Arte na formação do professor

 

Abordar a importância da Arte na educação é abordar necessariamente a importância do professor para a eficácia deste trabalho. Ele é o instrumento principal na formação do processo de transmissão dos ensinamentos nesta área. É de suma importância que o professor tenha conhecimento e preparo para trabalhar primeiramente com a Educação Infantil e segundo que tenha sensibilidade ao trabalhar a arte neste período de vida do ser humano.

 

O Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil, RCNEI, que agora foi substituído pela Base Nacional Curricular Comum (BNCC), aponta em seu primeiro volume Art.62 sobre a formação do professor. Para atuar na Educação Infantil, segundo a LDB (Lei de Diretrizes e Bases), os professores deverão possuir: nível superior, em curso de licenciatura, de graduação plena, em universidades e em institutos superiores de educação, admitida, como formação mínima para o exercício do magistério na Educação Infantil (BRASIL,1998, p. 39).

 

O Referencial ainda destaca sobre a polivalência e formação ampla que o professor deve ter, pois ele trabalhará diferentes temas e terá que estar preparado para tal tarefa. No mesmo Referencial, encontramos os princípios fundamentais a serem respeitados pelos professores de Educação Infantil e entre eles, podemos destacar: “o acesso das crianças aos bens socioculturais disponíveis, ampliando o desenvolvimento das capacidades relativas à expressão, à comunicação, à interação social, ao pensamento, à ética e à estética”.

 

Diante desse aspecto, o profissional da educação deverá investir na sua própria formação cultural, ampliando seu conhecimento em busca de uma prática de trabalho que valorize as crianças nas suas produções oferecendo diversas oportunidades de conhecimento das artes e suas manifestações para que as mesmas possam se expressar e dar sentido ao mundo.

 

Considerando a importância que a Arte exerce na formação humana, que tem como propósito seguir na direção da construção do conhecimento, o qual o professor é o mediador dessa construção e que nenhuma tecnologia irá substituí-lo, o trabalho aqui apresentado teve como propósito contribuir para o conhecimento do profissional da educação junto ao trabalho com crianças.

 

Pretendeu-se, através deste trabalho, pesquisar acerca da influência exercida pela arte no desenvolvimento da criança. Através de estudos bibliográficos constata-se que alguns autores citados descrevem a influência positiva da Arte na vida do ser humano. A mesma é considerada uma importante forma de linguagem de comunicação para ser trabalhada de maneira geral ou educacional. Por meio da Arte a criança desenvolve a imaginação criadora, a percepção, amplia a sensibilidade além de ser um instrumento facilitador no processo de compreensão do mundo.

 

“O ensino da arte é de grande importância para a vida dos seres humanos, visto que o indivíduo que não tem contato direto com a arte, tem uma experiência no processo de ensino aprendizado limitada, escapando-lhe a dimensão do sonho, da comunicação dos objetos ao seu entorno, da sonoridade excitante da poesia e da música, das formas cores, e toda forma de expressão que trazem o sentido da vida”. (Lowenfeld e Brittain,1970, p.115).

 

Apesar de ser um importante instrumento de desenvolvimento cognitivo, social e cultural, ainda se trabalha de forma inadequada o ensino de Arte na Educação Infantil. O mesmo como instrumento de ensino aprendizagem se encontra no processo educacional muitas vezes condicionado a trabalhos decorativos ou simplesmente a um passatempo onde certamente as crianças não se reconhecem como construtores e participantes de seus conhecimentos e aprendizagens. De acordo com Lowenfeld e Brittain:

 

Não queremos dar a impressão de que a humanidade é salva pelo mero desenvolvimento de um bom programa de criação artística, nas escolas públicas; mas os valores significativos num programa de arte são os mesmos que podem ser básicos para o desenvolvimento de uma nova imagem, de uma nova filosofia e mesmo de uma estrutura inteiramente nova do nosso sistema educacional […]. O processo de aprendizagem é muito complexo e, portanto, talvez não exista um único processo de ensino que possa considerar “o melhor” (Lowenfeld e Brittain,1970, p.15).

 

Desta maneira, entende-se que a arte como forma de novas descobertas e saberes, estejam presentes nas instituições de ensino levando a criança se envolver no trabalho artístico, respeitando suas produções permitindo que a curiosidade e a alegria seja uma constante em suas vidas como forma de dar continuidade no processo de criação.

 

Referências Bibliográficas

 

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LOWENFELD, V.; BRITTAIN, W. L. Desenvolvimento da Capacidade Criadora. São Paulo: Mestre Jou, 1970.
MOREIRA, Ana Angélica Albano. O espaço do desenho: a educação do educador. 9. ed. São Paulo: Loyola, 2002.
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