Armadilhas na docência de língua inglesa

por: Rodolfo Matiello

Nostalgia. Conforme nós vamos envelhecendo, é mais fácil termos esse sentimento, já que nossas experiências de vida são tamanhas que livros poderiam ser escritos, relatando cada momento que vivemos: o primeiro beijo, o primeiro amor, uma festa de aniversário surpresa, momento com os pais e pessoas queridas, viagens…. Todos nós tendemos a sermos nostálgicos e trazer de volta o sentimento bom do que passou, comparando-o com a situação atual.

 

E para professores, a nostalgia é uma armadilha que pode ser perigosa por estar relacionada à cognição tendenciosa, prejudicando a eficácia de nossas aulas.

 

Cognição tendenciosa: é um truque de nosso cérebro que nos faz analisar unilateralmente e ver coisas sob uma única perspectiva. O que geralmente acontece com professores de inglês é a busca por erros… Em outros. Na relação com os alunos, muitos professores ainda cometem o erro técnico de apontar deslizes e erros, sem avaliar juntamente o progresso e sucesso deste aluno, o que pode ser considerado uma grande armadilha pedagógica, uma vez que esse comportamento tende fazer com que os alunos se sintam menos confiantes para produzir em sala de aula.

 

Além disso, como um professor de inglês pode ter dados o bastante para checar o progresso se as crianças não falam, não escrevem e nem leem porque estão com medo do feedback frequentemente negativo? Outro fator dessa sede por erros que alguns colegas professores têm é a atitude de “eu não”. Muitos professores de língua inglesa no Brasil não pensam duas vezes antes de apontar problemas no trabalho de outros professores, nos planos de aula, atividades, postura em sala, mas falham ao auto-avaliarem suas próprias performances.

 

Também existem os que rejeitam aparelhos eletrônicos e a tecnologia, considerando-a uma inimiga quando deveria ser, e é, uma facilitadora, uma ferramenta para dar autonomia aos alunos na aprendizagem do idioma e em todas as tarefas que a língua inglesa oferece. Tempo também é um fator sempre presente para professores que têm dificuldades em serem críticos com seu próprio trabalho. Muitos educadores dizem não ter tempo suficiente para preparar aulas com o nível de excelência que gostariam por causa do alto número de responsabilidades, alunos e escolas que trabalham. Mas os professores têm, de fato, tido tempo para preparar suas aulas?

 

A falácia do planejamento de aulas é outro tipo de conduta cognitiva tendenciosa que muitos professores de inglês acabam tendo. É de conhecimento geral os obstáculos que os educadores têm, as dificuldades de equilibrar a vida social da profissional, mas faz parte do nosso trabalho planejar aulas, explorando ao máximo a internet, dicionários on-line e o corpus linguístico.

 

Falta de tempo não pode ser uma desculpa para uma aula mal planejada ou para o uso frequente da mesma atividade. O uso exagerado de um determinado plano é muito comum quando um plano de aula é bem sucedido e, então, alguns professores tendem a se debruçar sobre ele, se esquecendo de analisar, de fato, se o planejamento funcionou ou não, e enganam a si mesmos ao dizerem que o resultado foi o esperado, embora uma resposta rasa, influenciada por uma perspectiva tendenciosa. Nossa mente nos faz acreditar que tudo funcionou perfeitamente devido às experiências passadas bem sucedidas e, por isso, usamos o mesmo plano, a mesma atividade, tarefa sem parada para auto crítica.

 

Isso nos faz lembrar de outra armadilha que alguns professores de inglês acabam caindo: autoconfiança exacerbada. O sentimento de missão cumprida pode resultar em um comportamento que professores geralmente têm por terem aplicado a mesma atividade diversas vezes e por não mudarem a abordagem, tornando-a obsoleta. A confiança é tão alta que alguns professores acabam rejeitando qualquer análise e feedback dizendo que seu modus operandi precisa de atualização, trazendo à tona justificativas e desculpas que foram mencionadas anteriormente.

 

Toda vez que olhamos para o passado, há uma grande chance se sermos injustos. A nostalgia no ensino é não somente injusta, mas também acaba impedindo a evolução e entendimento, pois educadores que caíram na armadilha não se esforçam para criarem a melhor aula. Eles se apoiam nos materiais didáticos e negligenciam o background dos alunos.

 

Outro reformista educacional, Kelvin Oliver, concorda que nostalgia faz com que professores constantemente se refiram aos alunos do passado, seus comportamentos, backgrounds e desafios como superiores aos que as crianças têm hoje em dia e a tudo que esteja relacionado à elas. Viver no passado é um erro grande, pois professores perdem uma ótima chance de melhorarem suas próprias habilidades ao não reconhecerem as características da nova geração de alunos.

 

De acordo com Kelvin, negar a nova geração e se manter ligado ao passado, defendendo que antes tudo era melhor, é algo que faz com que professores se esqueçam dos alunos do presente, o que têm a dizer, seus anseios, contexto e, como resultado, as aulas e atividades vêm perdendo qualidade. Algumas aulas de inglês no Brasil têm apresentado a mesma abordagem há mais de 25 anos, em função desse efeito que a nostalgia tem sobre alguns professores, e ainda existem aqueles que se julgam inovadores somente por utilizarem slides em sala de aula ou por oferecerem atividades que os alunos gostam. Isso pode não estar gerando os resultados esperados, explorando todo o potencial dos alunos.

 

A nostalgia prepara armadilhas cognitivas que prejudicam as performances dos alunos em sala de aula. Ela faz com que professores deixem de participar de seminários, workshops, não procurem por cursos de desenvolvimento profissional, porque essas pessoas dizem não precisar disso pois se auto-proclamam atualizados, com abordagens bem sucedidas há mais de uma década, e negam observações que apontam espaços para melhorias.

 

Como resultado, o Brasil ainda tem alunos da rede pública, de escolas particulares e das chamadas “bilíngues”, com performance em língua inglesa muito aquém do esperado. Professores, não caiam nessa armadilha. O passado, por melhor que possa ter sido, ficou pra trás e precisamos usá-lo como experiência, sempre aceitando as gerações por vir.

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