Aprendizagem Baseada em Problemas: Moda ou método?

por: Paula Gobato

Você já deve ter ouvido falar da Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP) – ou, no seu termo em inglês, Problem Based Learning (PBL). Se não está lembrado, ou se ainda não se deparou com esta metodologia, posso explicar: a ABP é uma das abordagens de aprendizagem ativa e, assim como as outras desta categoria, coloca o aluno no centro de seu próprio aprendizado e considera-o um sujeito autônomo e capaz de gerar conhecimento, seja individual ou colaborativamente.

 

Surgida inicialmente como um modelo de aprendizagem, principalmente, para os cursos de medicina, a ABP foi utilizada pela primeira vez na Universidade McMaster, no Canadá, espalhando-se para outros países como Holanda, Estados Unidos e, mais recentemente, no Brasil, que também adota esta metodologia em outros cursos como a fisioterapia, terapia ocupacional, contabilidade e outras. Veiga et al. (2015) explicam que as principais razões do surgimento desta metodologia, assim como de outras, é o abismo ainda existente entre a prática e a teoria, o esgotamento dos modelos tradicionais das formações profissionais e a procura por inovação nos serviços ofertados.

 

A ABP estimula a busca pelo conhecimento de determinados temas pelo próprio aluno por meio de problemas contextualizados que devem ser resolvidos, diferenciando-se, em muitos aspectos, quando comparada à pedagogia tradicional. Na ABP, não ocorre a avaliação das habilidades dos alunos, mas a utilização dos conteúdos a serem trabalhados para o desenvolvimento e aprimoramento das habilidades que são desejadas no mercado profissional e para a atuação na sociedade.

 

Neste ambiente, o professor deixa de lado seu perfil como detentor do conhecimento e passa a assumir o papel de mediador e facilitador. Porém, certo cuidado ao falar do professor facilitador é necessário: ele não torna o conteúdo mais fácil, como pode parecer, mas é responsável por mediar o encontro entre o aluno e o aprendizado, tornando acessível a informação correta e de qualidade, e orientando a busca pelas soluções através de fontes confiáveis, fatos e dados consistentes.

 

O professor também atua na mediação dos grupos da ABP, que também é uma abordagem de ensino e de aprendizagem colaborativa, realizada em pequenas equipes cujos membros devem ter seus papéis e funções bem definidos, e também trabalhar em conjunto em prol de um objetivo comum: desenvolver uma solução plausível e apoiada por argumentos sólidos do problema definido. É um processo que se desenvolve em etapas cujos protagonistas são os alunos, o problema a ser resolvido e o conteúdo, com a conexão entre eles facilitada pelo professor.

 

Assim, um dos papéis do professor é providenciar materiais de diversas mídias e fontes (texto, livros, artigos, vídeos, imagens, ambientes simulados, etc.) para que os alunos possam, em grupo e colaborativamente, buscar informações, realizar discussões, tomar decisões e elaborar as soluções dos problemas propostos para, em seguida, apresentá-las ao professor e  ao restante da turma.

 

Os alunos assumem a posição de produtores do próprio conhecimento e têm o papel de sistematizar, organizar e relacionar as informações que têm disponíveis – seja no material disponibilizado pelo professor ou nos livros e na internet, que deve ser considerada uma fonte rica de informações e solucionar o problema definido. Para isso, eles devem trabalhar colaborativamente e assumir o comportamento ativo, tendo a possibilidade de, além de aprender diversos conteúdos que podem estar inclusos no problema (que também pode envolver a interdisciplinaridade), desenvolver habilidades de trabalho em equipe, escrita científica, oratória, argumentação consistente, raciocínio para tomada de decisões, entre outras.

 

Diante destas características – apenas algumas em meio a uma metodologia completa e diferente da abordagem tradicional de ensino – é importante realizarmos uma reflexão sobre o uso da ABP (e, por que não, outras abordagens de aprendizagem ativa) na educação atual, seja ela de educação básica ou superior (o que já vem acontecendo em um movimento mundial de reforma da educação).

 

A ABP tem, como um de seus fundamentos, a formação humana e crítica de seus aprendizes, procurando também desenvolver neles habilidades necessárias para o mercado de trabalho e a sociedade deste século, como já apontado anteriormente. Sendo assim, considerando as necessidades apresentadas pelos alunos dos tempos atuais, imersos na tecnologia e na sede por aprender de diferentes formas, é possível sugerir que é hora de aceitarmos que nossos alunos mudaram: cada um deles aprende de uma maneira diferente e também podem produzir conhecimento, ensinando os seus colegas e, quem sabe, também ao professor. Além disso, a informação está muito acessível, o professor não assume mais a função de fornecê-la. Porém, ainda é necessário que o professor faça a mediação entre esta informação e o aluno.

 

É o momento de olharmos para a ABP e para as outras abordagens de aprendizagem ativa e vermos que não são práticas que chegaram como uma moda de estampas e modelos de vestuário que cairá no ostracismo em breve, mas, sim, novas formas de ensinar com as quais podemos aprender e utilizar esse conhecimento em prol de nossa própria prática docente e como uma das inúmeras formas de participar do processo de melhoria da educação em tempos tão dinâmicos e tecnológicos.

 

Uma metodologia de ensino que leva em conta a capacidade de indivíduo produzir conhecimento e acionar saberes prévios enquanto aprende pode representar uma luz no fim do túnel, neste momento em que a educação anda tão banalizada e desvalorizada. É a possibilidade do resgate da função social do ensino, da formação crítica, reflexiva e preocupada com as habilidades cognitivas, sociais, de comunicação, profissionais e outras possíveis de serem trabalhadas e desenvolvidas.

 

E você? Como considera o constante crescimento da ABP e das abordagens de aprendizagem ativa no Brasil e no mundo?

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA 

VEIGA, I. P. A. (Org.); SILVA, E. F.; BRANCO, M. V. C.; SOUZA, M. H. V.; LOPES, M. L. M.; GARBIN, N.; FERNANDES, R. C. de A. Formação médica e aprendizagem baseada em problemas. Campinas: Papirus, 2015.

Para saber mais sobre a Aprendizagem Baseada em Problemas:
MUNHOZ, A. S. ABP – Aprendizagem Baseada em Problemas. São Paulo: Cencage, 2016.

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